Protesto pacífico reúne mais de 300 indígenas, MTST e aliados no 8º Grito Ancestral. A ação denuncia o avanço das hidrovias do Arco Norte, da soja e da retomada da Ferrogrão, e antecede a saída da Caravana da Resposta rumo à COP30
Enquanto líderes globais discutem metas ambientais em Belém, mais de 300 indígenas e movimentos sociais ocuparam o rio Tapajós, no Baixo Tapajós (PA), para protestar contra a expansão de projetos de infraestrutura que ameaçam o território.
O 8º Grito Ancestral ocorreu dentro do Território Tupinambá, na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, e reuniu lideranças em um ato pacífico de resistência. Durante cerca de cinco horas, quatro embarcações e seis lanchas interceptaram comboios de barcaças que transportavam cargas, exibindo faixas com mensagens como “Ferrogrão Não”, “Comida sem veneno” e “O agro passa, a destruição fica”.
“O Grito Ancestral é o nosso recado aos líderes do mundo. Não queremos que nossos biomas sejam vistos só como mercado, como corredor de soja, porto ou ferrovia. Queremos que vejam os povos que estão aqui há séculos, cuidando da floresta e do rio. Preservar o Tapajós é condição para qualquer compromisso climático sério”, afirmou Marília Sena, liderança Tupinambá.
Tapajós sob ameaça
O Tapajós é hoje um dos rios mais estratégicos do país. Nascendo no Mato Grosso e desaguando no Amazonas, sua bacia (que representa cerca de 6% das águas da Amazônia) abriga dezenas de comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, além de áreas protegidas como a Resex Tapajós-Arapiuns e a Floresta Nacional do Tapajós.
Apesar de sua importância ambiental, o rio tornou-se alvo de uma série de projetos de portos, hidrovias e terminais privados. O Decreto 12.600/2025, que integra o plano federal de hidrovias do Arco Norte, inclui o Tapajós como rota prioritária para o escoamento de commodities agrícolas até os portos de Santarém, Miritituba e Barcarena.

Em paralelo, o projeto da Ferrogrão (EF-170) é impulsionado por gigantes do agronegócio como Cargill, Bunge, Amaggi, ADM e Louis Dreyfus, e pode multiplicar em até seis vezes o volume de grãos exportados pela região até 2049.
Para o povo Tupinambá, isso significa mais barcaças, dragagens, poluição e conflitos territoriais. “O que está em jogo é a privatização dos nossos rios”, resume Gilson Tupinambá, coordenador do Conselho Indígena Tupinambá (CITUPI). “O Tapajós, o Tocantins, o Madeira estão sendo transformados em corredores para soja e minério, enquanto nossas aldeias sofrem com água contaminada, menos peixe e mais violência.”
Ferrogrão pode avançar após COP30
A mobilização ocorre justamente quando o governo federal volta a sinalizar a retomada da Ferrogrão após a COP30, conforme publicado pelo Valor Econômico. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) pretende concluir estudos e submetê-los ao TCU, enquanto o Ministério dos Transportes planeja um leilão para 2026 e um “roadshow” internacional para atrair investidores, incluindo na China.
Para Alessandra Korap Munduruku, a contradição é evidente: “É uma contradição o governo falar em compromisso climático em Belém e, ao mesmo tempo, querer acelerar uma ferrovia pensada para baratear a exportação de soja, aumentar portos no Tapajós e pressionar ainda mais nossas terras. Se querem discutir o clima, têm que ouvir os povos que vivem onde esse trem e essas hidrovias querem passar.”

Povos do Baixo Tapajós cobram proteção e consulta prévia
Durante visita recente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à aldeia Vista Alegre do Capixauã, o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (CITA) entregou um documento com as principais demandas dos 14 povos do Baixo Tapajós, que representam 15 territórios e 126 aldeias entre Santarém, Belterra e Aveiro.
A carta denuncia o aumento dos conflitos fundiários ligados à soja, à Ferrogrão e às dragagens, e exige a criação de um Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) próprio e de uma Coordenadoria Regional da FUNAI em Santarém. O texto alerta que a combinação entre hidrovias, ferrovia e portos privados “ameaça diretamente a vida dos povos indígenas e o equilíbrio do ecossistema regional”.
Para o CITA, “não há solução climática possível enquanto rios amazônicos forem tratados apenas como corredores de grãos, e enquanto os povos do Tapajós seguirem sem consulta livre, prévia e informada”, em referência à Convenção 169 da OIT.
De Santarém a Belém: a Caravana da Resposta
O 8º Grito Ancestral também marcou a preparação para a próxima etapa da mobilização. No sábado (8), a Caravana da Resposta parte de Santarém em direção a Belém, reforçando o elo entre o protesto no Tapajós e a presença dos povos na Cúpula dos Povos e na COP do Povo.
A caravana, que iniciou sua jornada em Sinop (MT) no dia 4 de novembro, percorre a mesma rota usada pelo agronegócio para exportar soja, mas agora, com outro propósito: defender o direito aos rios e denunciar as violações ambientais e territoriais.
Ao longo do percurso, haverá assembleias, rodas de conversa e atividades culturais sobre hidrovias, Ferrogrão, dragagens, regulação europeia da soja e demarcação de terras. Alimentos agroecológicos doados por redes camponesas abastecerão a Cozinha Solidária da Cúpula dos Povos, em um gesto simbólico de resistência e partilha.










