Produção cultural preta como espaço de protagonismo, resistência e construção coletiva de narrativas
É na sala de casa que gesto ideias e projetos, crio parcerias criativas, pontos de encontro, planilhas orçamentárias, escrevo e me uno a tantas outras mulheres negras que veem na produção cultural um espaço de protagonismo e atuação ativa na construção de discursos. Pensar e demarcar a produção como produção cultural preta é, em parte, enfrentar longas narrativas — uma faca de dois gumes — onde os atravessamentos étnico-raciais e de gênero são insumos.
Há cinco anos comuniquei nossa saída da base e a fome de mudar o mundo, por sermos advindas do barro, Bititas, confluência de corpo e pele, seres pensantes e questionadores. Exercito a perfuração da estufa/bolha, que nos diminui potencialmente como seres críticos e reflexivos. Nela, falamos sempre para as mesmas pessoas, ouvimos quem pensa de forma parecida e aplaudimos a nós mesmas.
Acredite: a produção cultural preta converge em múltiplos caminhos, poderosas realizações e embates. É a encruzilhada que assume a negrura, possibilitando a construção de um “nós” que diz respeito à consciência cultural, à estética, à corporeidade, à musicalidade, à religiosidade, à vivência da negritude, ao processo de africanidade e à recriação cultural. Nos posiciona diante do outro. Nesse ínterim, as abordagens — apesar de diferentes — se alinham, e o quebra-cabeça mostra peças que nunca dialogaram, revelando lacunas, apagamentos e ausências de diálogo.
Se estivéssemos em julho, falaríamos sobre ser parte do processo e ser o processo, a “regra da gota única”, o filme “Até a última gota” e a “linha da cor”. Em agosto, cantamos em iorubá sem conhecer o idioma, porque não somos “todo mundo”, nem “qualquer um”. Em setembro, nomeamos e colocamos em roda o diálogo entre quem conta a história e quem escuta. Nesta história habita uma multidão. É a famosa história sem fim, mas que tem rosto, carne e pele.
O Julho das Pretas tornou-se o soco no estômago que provoca e cobra resposta, celebrando o matriarcado negro que matrigesta todos ao seu redor. Agosto é marcado pelo aniversário do Jornal Empoderado e pelo eco de frases como “Ainda estou aqui” e “Cuidado com a neguinha, ela é realmente foda”, narrativas ditas e não ditas que revelam o peso e a leveza de quem já foi e de quem há de vir. Setembro, nos banhamos, iniciamos o processo de cura, transitamos de um lugar a outro ao som de “Banho de Folhas”, de Luedji Luna. E, com tudo isso em jogo, ainda discutimos a trend da suposta novidade do morango do amor.
A semana começou com um lambe-lambe que destacava a frase “CUIDADO COM NEGUIN”. Por si só, já seria o epígrafe desta matéria, suficiente para dias de conversas, reflexões e terapia. Na ausência de complemento, as lacunas são preenchidas. Esse lambe-lambe integra o projeto “Cuidado Com Neguin”, do ator Kelson Succi, que propõe o exercício de descolonizar pensamentos, completado pela frase “Ele é realmente foda”. Nós somos foda — pode consultar seus oráculos. Somos declaração, denúncia, cobrança, exigência.
Ouça: sempre houve uma reza sussurrada, uma memória acesa, um segredo guardado no tempo. Chegou o momento de desnudar narrativas, de aparecer. Já não cabe tratar a produção cultural preta como “isso” ou “aquele assunto polêmico”. Não seremos mais forasteiras de dentro: reinventamos definições, delimitamos lugares, nos posicionamos e praticamos a autodefinição. Enquanto mulheres negras e produtoras culturais, extrapolamos e assumimos outras funções, tecendo coletivamente. Conquistamos o direito de curtir o ócio criativo e de contradizer a visão padronizada de estado de luta e exaustão — de guerra e batalha 24 horas por dia.
Acompanho o processo crítico-criativo de alguns projetos culturais feitos e dirigidos por pessoas negras. Neles, criam-se diálogos e narrativas que passam pela escravidão, mas não se fixam nela. Trazem o quilombo como conceito em movimento, e não mais como fuga de escravizados. As lacunas — ou frestas — se formam e criam um beco sem saída quando a pauta é a curadoria de projetos culturais negros por pessoas não negras. Essas assumem o papel sacrossanto de detentores do conhecimento, da articulação de contatos e das políticas de exibição.
Esses olhares tornam-se curatoriais e, ao mesmo tempo que defendem a luta antirracial na contemplação de projetos culturais, nas programações e exposições temáticas, não sentem, não percebem nem preenchem as lacunas com olhares de curadores e produtores negros. Sou ré confessa: realizo produção de guerrilha e trincheira, assim como tantas outras produtoras. Estou posicionada em uma margem social vista por um conjunto de profissionais que dialogam com o mercado de sobrevivência, moldam nossos projetos a apelos comerciais, alcance de público e consumo cultural para entretenimento. Sim, caminhamos na contramão do lucro propriamente dito.
São muitos os entraves das produções negras, da sustentabilidade à demanda financeira. Mesmo quando contemplados, ainda disputamos seleções de baixo e médio orçamento. E a dificuldade se intensifica quando o projeto que realizamos, por recorte de raça e/ou gênero, não tem apelo comercial ou vai contra a maré da perspectiva de uma cultura negra folclorizada.
Na última quinta-feira, dia 11, a Câmara dos Deputados analisou o Projeto de Lei (PL) 4313/24, que implementa a Política Nacional de Fomento à Produção Cultural Negra, valorizando a produção cultural de artistas, coletivos e comunidades negras. O texto foi aprovado pela Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial. Para virar lei, ainda precisa passar pela Câmara e pelo Senado. O PL define a criação de incentivos à criação, produção, difusão, preservação e valorização das expressões culturais negras, considerando suas especificidades regionais.
Sabemos, de antemão, que haverá ausências. Em alguns casos, não há apenas lacunas, mas um processo contínuo de apagamento e exclusão — olhares que não correspondem às realidades. Tenho a oportunidade de acompanhar desdobramentos que nos realocam como agentes ativos na criação e disseminação de conteúdo cultural. Quase sempre ouço o tom de desqualificação e invisibilização quando me perguntam: “É você a produtora?”. Tentam me desarmar, como se eu não dominasse o conhecimento que eles dominam.
É interessante parar e olhar para trás na tentativa de traçar uma narrativa — ainda que recente — da minha atuação na produção cultural. Cheguei à docência no Senac e, quando penso em mulheres na produção cultural, costuro a narrativa em coroar aquelas que não foram coroadas.
Tudo causa estranheza sob o olhar do outro: dos projetos culturais que abrangem múltiplas expressões artísticas com influência afro às produções pensadas, comandadas e feitas por e para pessoas negras. Desafiamos o modus operandi diante de uma produção realizada pelas mãos, mentes e olhares dos sujeitos subalternizados da diáspora negra. Somos uma encruzilhada que promove discussões profundas sobre identidade, musicalidade e ancestralidade — um ponto de passagem e comunicação. E é nela, na produção, que encontramos o lugar onde o pertencimento se revela.
Todo projeto cultural que enaltece a cultura negra torna-se um espaço de decisão e transformação, seja fruto de uma produção individual ou coletiva. Nesse processo, as forças se cruzam, resgatando saberes, valores, ancestralidade, oralidade e corporeidade, permitindo-nos protagonizar novas narrativas oriundas do acolhimento, das oferendas, dos pedidos, dos agradecimentos, do movimento e da criação.
Se promovêssemos um debate sobre a dimensão cultural afro, entenderíamos que a africanidade faz parte da brasilidade. Eis o fio condutor do espetáculo “BRASILIDADE – MUITO PRAZER, ÀS IYÁLÓDES”, que dirijo e no qual assumo o papel de griot. É irrefutável o fato de que as produções culturais negras nascem e sobrevivem das possibilidades que restaram dos ‘sins’ e que nós, mulheres negras, provocamos suturas psíquicas.
Recorro ao monólogo de Hamlet, que na prática expõe nossos questionamentos e escolhas: ser cura ou curativo. Somos arquivos de uma coletividade e, através do espelho de Oxum, convidamos outras mulheres negras para esse diálogo, com o intuito de marcharmos em novembro.
“Aurê. Eu honro a sua ancestralidade, quem veio antes de você, para que a sua existência fosse possível hoje.”
Revisão e edição: Brenda Evaristo.










