No Campo Limpo – SP, EMEF Prefeito Adhemar de Barros organiza o 3º Fórum Antirracista em busca de uma cultura de paz.
O programa Escola da Família – PEF, instituído pelo Decreto 48.781, de 7-7-2004, convida o corpo diretivo das Escolas Estaduais participantes a planejarem intervenções que alcancem os alunos e a comunidade do entorno, com o intuito de cultivar uma cultura de paz através de ações socioeducativas. O decreto recomenda cinco eixos norteadores: aprendizagem, cultura, saúde, esporte e trabalho.
“Promover políticas públicas e ações voluntárias voltadas à aprendizagem dos alunos e ao fortalecimento de atitudes e comportamentos do indivíduo para a cultura cidadã, a paz e a harmonia na convivência social” é a única diretriz orientadora mencionada no decreto, não há registros de incentivo direto à pauta antirracista.
Felizmente, a direção da EMEF reconhece que a pauta racial não é apenas necessária – é urgente. Há 3 edições, o Fórum Antirracista utiliza o programa para abordar o tema no território de maneira exemplar. A escola está localizada no Campo Limpo, bairro que possui o maior número de favelas de São Paulo, seguido do maior percentual de concentração de população negra (47%).

A proposta do 3° Fórum abordou o tema “cultura de paz” por meio da vivência de 4 elementos: Hip-Hop (DJ, MC, Break e Graffiti), ouvir vozes potentes da quebrada, refletir sobre identidade, beleza e ancestralidade, e celebrar o poder da coletividade.
Alunos realizaram exposições de arte a partir de dados demográficos do Campo Limpo, com recorte racial, refletindo sobre identidade, território e desigualdades. As obras também incentivaram a continuidade dos estudos e estimularam o imaginário dos jovens sobre as profissões que podem ocupar no futuro. A Inteligência Artificial (IA) foi utilizada como ferramenta para transformar essas possibilidades em referências reais, ampliando horizontes e aproximando os estudantes de trajetórias profissionais possíveis.


O evento contou com a produção do Quintal da Família Hip Hop, o grupo foi contemplado pelo edital de fomento do Programa de Ação Cultural (PROAC).
Os eixos orientadores foram: break, arte e conhecimento. Para abordar o break a produtora contou com a equipe do Xeque Mate com um aulão coletivo para crianças e adultos. A arte foi coordenada pela Gabriela Maeda e Girassole, que deixaram a marca do 3º Fórum nos muros da EMEF em um live paint durante o evento. Hayara completou a triade com o conhecimento, compartilhando sua trajetória até a conquista de sua bolsa de estudos em História através do ENEM.


A literatura é um dos caminhos na transformação da sociedade e para honrá-la o evento reservou um espaço para o stand de obras de Raíme Paixão e Aline Soares ambas mulheres pretas, pedagogas e referências na literatura infantil negra com títulos como “Mãe Preta e Filha Preta”, “YAA ASANTEWA- A rainha-mãe do trono de ouro e AMANIRENA a rainha da Núbia.

Buscando a aproximação do debate do tema com a população, a escola convidou o Professor Bispo Nilton, pedagogo de geografia, mestre em Educação com tese sobre “Masculinidades Negras” e, atualmente, estudante da realidade do jovem negro no Ensino Superior para além dos índices sociais já mapeados.
Em palestra, Nilton utiliza exemplos práticos vividos em sala de aula para destacar a relevância de eventos como o Fórum para o fortalecimento da luta contra o racismo em ambientes escolares e reforça o imprescindível papel do envolvimento dos familiares no acompanhamento do desenvolvimento dos jovens pretos e periféricos.
O professor encerra a fala com o esclarecimento do significado de 3 conceitos que costumeiramente são empregados incorretamente – preconceito, discriminação e racismo.
Explicitando que o preconceito pode ser acometido por qualquer pessoa, independente da sua etnia. Pois ele desrespeita o comportamento de julgamento precipitado. A discriminação é identificada quando o acesso a um lugar e/ou oportunidade, é negado a qualquer pessoa. E o racismo é a discriminação somada à questão racial, ou seja, quando o impeditivo para acessar oportunidades e/ou lugares está diretamente ligado a uma questão racial.

Cris Assumpção é organizadora do Fórum e atua em diferentes frentes como Auxiliar Técnica em Educação, Liderança CUFA e Presidente da ONG “Corrente do Bem”.
Ao conversar com o Jornal Empoderado, Cris comenta que os desafios da EMEF Adhemar de Barros são os mesmos de outras instituições de ensino. Para o site “Agendas para o Brasil”, esses desafios estão concentrados em 4 pontos: intolerância religiosa, resistência da comunidade escolar, falta de formação e falta de recursos financeiros.
Apesar da similaridade com as outras redes, Cris destaca que principalmente a LGBTfobia e o racismo estrutural são pautas recorrentes por trás dos muros da EMEF Adhemar.
Para as outras unidades de ensino que ainda não implementaram ações afirmativas contra o racismo. Cris recomenda: “Que se abram as portas para a comunidade”. Deseja também que a comunidade negra entenda que há outros papéis para se ocupar para além do vitimismo. E incentiva que, se “as portas não se abrirem”, elas devem e podem ser forçadas, pois esses espaços são públicos, portanto, como agentes políticos, todos possuem o direito de exercitar a cidadania articulando ações afirmativas contra o racismo.










