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RETOMADA DE TERRITÓRIO INDÍGENA EM PALMEIRA DOS ÍNDIOS

Texto de Tatiana Oliveira. Fotos de Meg Kariri Manauara. Imagens divulgadas pelo Canal Retomada Kariri.

Indígenas da comunidade Pankaxuri realizaram, no dia 28 de fevereiro, uma retomada ancestral ocupando um território originário. A terra localizada na cidade de Palmeiras dos Índios pertence a União e foi desapropriada para reforma agrária. Em vídeo divulgado pelo canal do YouTube Retomada Kariri eles registraram o momento exato em que retomam o território, com apoio da Cacica Lúcia Paiacu-Tabajara e do Cacique Kero-Kero.

De acordo com o Cacique Xiquinho Xukurú kariri Óia Porã, que liderou a ocupação, o povo Pankaxuri é formado por 28 famílias, cerca de 70 adultos e 30 crianças. “Somos índios urbanos, retomamos a terra de nossos antepassados para viver aqui e preservá-la com o conhecimento da nossa tradição. E estamos formando uma nova etnia: Pankaxuri, formada pelos povos Pankararu e Xucuru-Kariri”, afirma o Cacique Xiquinho.

Ele também relata que a demarcação original das terras indígenas em Palmeiras dos Índios era de 13 mil hectares, mas a Funai reduziu para 7 mil.

“Estamos sem nenhum apoio da Funai, sem estrutura e em situação de vulnerabilidade. Temos crianças e idosos e estamos fazendo uma campanha de doação para nossa alimentação, mas precisamos que o órgão Funai faça alguma coisa por nós. Ainda não fomos vacinados.” Funai é a sigla da Fundação Nacional do Índio, órgão indigenista oficial do Estado Brasileiro criado em 1967.

Povos indígenas vivendo em terras indígenas fazem parte do grupo prioritário de vacinação, de acordo com o Plano Nacional de Operacionalização da Vacina contra a Covid-19, elaborado pelo Ministério da Saúde. No site do Ministério foi divulgado também que a priorização de vacinação de grupos determinados visa a garantia do “funcionamento dos serviços de saúde, a proteção dos cidadãos com maior risco para coronavírus, além da preservação dos serviços essenciais”.

Com população estimada – pelo IBGE – de 73.337 no ano de 2020. A cidade de Palmeira dos Índios registrou, de acordo com dados divulgados em seu site até o dia 31 de março desse ano, 79 óbitos por Covid-19, e dos 12.647 testes realizados: 3.435 casos foram confirmados.

A história de luta do Cacique Xiquinho

Em entrevista, o Cacique Xiquinho contou que está na luta pela retomada de aldeias indígenas desde quando era criança.

Tatiana Oliveira: Qual é a origem da sua família?
Cacique Chiquinho: O meu avô veio de lá do Brejo dos Padres, da aldeia Pankararu, que tá situada lá no município de Itacaratu. Lá é a terra das minhas bisavós, da minha avó e do meu avô que veio criança pra Palmeira dos Índios e aí se criou num lugar chamado Viçosa, Alagoas.
E de Viçosa, quando ele chegou em Palmeira dos Índios com 18 anos, em 1930, ele conheceu a minha avó onde hoje é uma aldeia chamada Boqueirão, minha avó nasceu lá dentro, aí eles se casaram, e começou a família, minha mãe é nascida na Serra do Goiti, em Palmeira dos Índios, é uma goitizera: a Dona Iraci, conhecida como Dona do Mel.

T. O.: Quanto tempo faz que o senhor está na luta pela demarcação dos territórios indígenas?
C. X.: A minha luta começou em 1979, eu tinha apenas 10 anos de idade quando a gente retomou a aldeia Mata da Cafurna, em seguida a gente lutou junto no processo de reconhecimento da aldeia Cafurna de Baixo, e depois lutamos pra reconhecer a aldeia Serra do Capela, após a saída do Cacique Manoel Celestino da aldeia Fazenda Canto e aí a gente encaixou na luta.
E depois, em 2005, eu comecei a juntar minha família que vivia espalhada na zona urbana da cidade de palmeira dos Índios, exposta a todo tipo de mazela, e uma convivência muito diferente da nossa, convivência que nós não poderíamos estar vivendo, a gente tem que estar no nosso lugar, preservando nossos usos, costumes e tradições que foram herdados de nossos antepassados.
E aí a minha família já vem a tempos na luta, somos reconhecidos e cadastrados do Governo Federal e estamos aqui. Estávamos a quatro anos na zona urbana da cidade. A aldeia Monte Alegre foi fundada por mim e minha família, uma terra que pertencia ao ex-vereador da cidade de Palmeira dos Índios, por nome de Denisval Basílio, a Funai agora tá entrando em processo de pagamento e tá indenizando as benfeitorias dele, porque a terra já é tradicional indígena, foi terra dos nossos antepassados como essa que a gente tá ocupando.
Em Palmeira dos Índios a demarcação era 13 mil e 20 hectares de terra, mas na palavra dos meus antepassados era uma légua em quadro, medindo da Catedral Diocesana de Palmeira dos Índios, a igreja católica media de lá uma légua em quadro na cidade de Palmeira dos Índios, essa é a terra pertencente aos indígenas Xukuru-Kariri. Depois foi reduzida, e hoje aonde eu me encontro ficava dentro da demarcação. Mas aí passamos por cinco GTs, cinco Grupos de Trabalho da Funai que vieram de Brasília para concluir a demarcação e não conseguiram.
Mas depois chegou a antropóloga Siglia Zambrotti Dória e conseguiu concluir o processo demarcatório de Palmeira dos Índios reduzindo pra sete mil hectares de terra. Vejam só a perca, mas que tá falado assim no relatório: sujeito a alteração, e quando está sujeito a alteração fica arriscado entrar também essa terra né, porque nos 13 mil e 20 ela estava dentro da demarcação, mas agora ela foi desapropriada e ficou área do Governo Federal, e sendo do Governo Federal ela é nossa, pertence a nós. Então é assim minha parenta, nossa luta já vem de muito longe.

T. C.: Como é a questão da sobrevivência do seu povo, vocês recebem algum apoio do governo pra sobreviver?
C. X. Desde que a gente vivia nas aldeias até chegar na zona urbana da cidade nós nunca paramos de trabalhar na nossa cultura que foi fazer nossos artesanatos, e viajava pra cidade do Recife, Maceió, pra vender, negociar e trazer dentro das nossas casas o pão de cada dia. E na aldeia não vai ser diferente, vai ter a turma que faz artesanatos, trabalha com artesanatos e outra turma na agricultura e assim a gente vai preservando nossos usos, costumes e tradições.
Tem algumas famílias que trabalham na cidade, empregado na prefeitura, outros que trabalham como autônomo, de pedreiro, pintor, eletricista, mas esse pessoal está voltando pra aldeia, tinha até alguns deles que trabalhavam de mototáxi, e estão aqui também junto conosco.

T. O.: A prefeitura do município de Palmeira dos Índios tem ajudado vocês?
C. X.: O prefeito eu acredito que veio a saber há pouco tempo, porque minha mãe chegou da cidade falando que ele já tá sabendo que a gente está aqui. Então vamos aguardar mais uma semana pra ver se ele nos procura aqui. E vai dar prioridade ao que a gente está passando, até porque nós somos munícipes, nós somos cidadãos e nós votamos.

T. O.: A população indígena tem prioridade na vacinação. Vocês já foram vacinados, ou receberam visita de alguém do serviço de saúde?
C. X.: Quanto a saúde nós estamos sofrendo descaso, nós não fomos vacinados e ninguém da saúde apareceu até agora. Nós estamos vivendo com a saúde que o nosso Pai Tupã deixou pra nós, com a medicina tradicional indígena que tem a minha mãe aqui que faz remédios, e estamos vivendo assim, né.

T. O.: E como é a relação de vocês com a Funai?
C. X.: Eu entrei em contato com a Funai lá de Maceió, com a coordenadora Waldira, ela falou que estava aguardando ordem de lá do superior dela lá de Brasília para poder se deslocar, vir até aqui, mas até agora não veio. E o coordenador técnico local daqui de Palmeira dos Índios que é o senhor Cristóvão também não veio aqui. A gente solicita a vinda desse pessoal, mas eles não aparecem. E assim, nós estamos sofrendo descaso, a verdade é essa, estamos sendo abandonados pela Funai e pela Sesai.

T. O.: Como vocês estão sobrevivendo?
C. X.: A gente ainda está vivendo com a ajuda que veio do Catarse, uma campanha que foi feita pela nossa amiga, nossa parenta Meg Manauara junto com a Rebeca, junto com o Mikael, um pessoal que fez essa campanha aí do Catarse pedindo ajuda pra nossa luta, pra nossa retomada e a gente ainda está comento com o restou desse dinheirinho. E também a prefeitura, nos ajudou, trouxe hoje uns peixinhos pra gente comer agora na Semana Santa, eu consegui também com a Funai 14 cestas básicas, que a verdade é essa, era pra eles darem o total de famílias que tem aqui, 25 famílias, mas eles só deram 14 cestas. E assim, a gente fica contando com a ajuda dos que vierem, né. Toda ajuda é bem-vinda, estamos vivendo assim.

Entramos em contato com a Funai, solicitando uma entrevista com Waldira Maria de Barros, Coordenadora Regional Nordeste I e também com a prefeitura de Palmeira dos Índios. Mas não obtivemos nenhuma resposta até o fechamento dessa reportagem.

Para contribuir com o povo Pankaxuri o código Pix é 07542405411 em nome de Amparo Cavalcante de Silva, banco Caixa Econômica Federal, Agencia 0057, Conta Poupança (operação 013) número 54122-5.

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