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Paternidade: a arte da flexibilidade

“Sou um homem de princípios rígidos e estáveis. O primeiro deles é ser sempre flexível”.

Everett Dirksen

Eu não sei o que é ser pai, um dia, saberei o que é ser mãe. Mas, sou filha primogênita de um pai e filha única de uma mãe. E, na perspectiva de uma filha que cresceu ao lado de sua mãe, arrisco aqui algumas reflexões sobre a paternidade.

Rir de madrugada, passear na cidade, conversar sobre as adversidades. Discordar, concordar, apaziguar. Indiferença e más lembranças com potencial transitório à realidade afetuosa e de presença. São nuances que vivencio e observo em muitos filhos/as e pais que também são filhos.

A realidade de quem é filho/a é a mais diversa e plural possível. Longe de mim, categorizar tais vivências, mas, observo, por exemplo, que a experiência de quem reside nas periferias ter um pai acessível é uma tarefa difícil: seja por trabalho árduo para suprir o que não lhe foi dado como filho; trabalho árduo, mas com uma paternidade afetiva preservada; trabalho precário/árduo para tentar manter o necessário; trabalho árduo para substituir atenção por presentes; trabalho improvável que levou o pai a ser um presidiário; trabalho saudável e rentável, mas que não supre o afeto necessário; trabalho inexistente que trouxe outros agravos; abusos; violências; ausência física; ausência afetiva; ausência protetiva; ausências e mais ausências… Não necessariamente nesta ordem, não necessariamente como descrevi, mas fiz algumas pontuações do que já presenciei na interação com as pessoas.

Nossos pais também foram e/ou são filhos de um pai. E, por mais “clichê” que possa parecer, pais dão o que lhes é, ou foi, possível dar naquele dado momento da vida, o que lhes foi dado como ensino, como experiência, ou pelo o que decidiram no meio do caminho. Por vezes, a quem só teve violência, poderá oferecer frieza e insegurança, há quem só teve rigidez e intolerância, poderá oferecer desafeto e inconstância, há quem teve tudo isso e muito mais ou muito menos, poderá oferecer amor e afeto sem medida, ou mesmo um sumiço durante a neblina. Para vivenciar a paternidade não há fórmula matemática, não há exatidão ou ciência que garanta sua eficácia. Não há regras, o que um pai recebeu ou não recebeu enquanto filho, não define o seu papel e vínculo com o seu filho/a.

Particularmente, eu acredito no potencial humano, acredito que o ser humano é “plástico”: moldável, permeável, passível de mudanças.

Homens que percebam aspectos disfuncionais na relação com seus filhos, e até mesmo deles enquanto filhos com seus pais possuem a possibilidade de atualizar sua vivência para algo que seja mais flexível: abrir-se a possibilidade de um vínculo pai/filho que seja possível para ambos os lados. Ressalto o possível, pois nem sempre será palpável tudo o que se quer e no tempo que se espera, seja para o pai, seja para o filho/a. Mas o tempo é rei! O tempo traz amadurecimento e empatia, pés no chão para viver uma nova realidade dentro de ambas as possibilidades.

A flexibilidade entra no campo do que é simples. E o “simples” pode ser bem complexo, em dados momentos, para não dizer em quase todos. Abrir-se à flexibilidade, penso eu, é poder se permitir ser tocado pelo novo, por aquilo que seu filho/a traz enquanto inusitado.

A distância posta por gerações distintas, por vezes, é para além da cronológica. O distanciamento (físico ou não) pode ser dado devido a diversos fatores, entre eles o distanciamento afetivo. A distância posta por gerações distintas tem o potencial de ser uma ponte que permita um diálogo entre ambos, uma troca de saberes entre gerações, a possibilidade de interagir com o mundo do outro, voltar para o seu próprio mundo e integrar mais aspectos à sua identidade enquanto pai, enquanto filho/a.

É a arte da paternidade, é a arte da escuta, é a arte da flexibilidade e cada um desenvolvendo a sua parte. Dentro do que for possível, dentro da auto permissão, criar pontes de compreensão.

Ver o comercial de “O Boticário” neste agosto, na ocasião do Dia dos Pais, me trouxe um alento e me nutriu de esperança, por ver homens negros sendo representados com uma paternidade saudável, presente e afetiva. Conheço muitos homens negros com uma paternidade afetiva e presente, que possuem sim, vínculos positivos com seus filhos, sendo representados numa campanha tão sensível: de um pai com presença na vida de seus filhos, arriscando gestos de carinho, a se expor ao “ridículo” para ser presenteado com o sorriso do filho/a, a um pai que oferece seu ombro amigo, o caminhar com os filhos, uma paternidade saudável e flexível às necessidades afetivas de sua família e uma família que acolhe e respeita as necessidades desse pai.

A esperança de ver em mais rostos, a experiência de fazer da paternidade e do vínculo pai-filho/filha, a arte do possível que possa dar um novo contorno e sentido ao rumo.

Samanta Santos da Fonseca
Psicóloga Clínica|CRP 06/12393-3
Mulher negra sonhadora e apaixonada pela vida e suas possibilidades

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