No mês da Mulher, coloco em discussão novas versões dos fatos. A capacidade de outrar-se através do ato de vestir, eu e os outros (eus) e a roupa de segunda mão na construção de novas narrativas e releituras. Aqui o título ganha teor de pergunta: “Outrar-se?”. Quanto mais compressão têm desse mundo, mais ele se torna parte da sua vida, deixando de ser um clube ao qual você não pertence.
Muitas pessoas ainda a consideram um assunto supérfluo e não é nosso caso. Uns se preocupam com o status (Vista-te e direi quem és!). Outros se preocupam com a construção de suas identidades. Há ainda aqueles que defendem a ideia de que a Moda não tem uma aparência, uma forma, uma textura. E os mais próximos deste universo a percebem nos desenhos dos vestidos, nas revistas especializadas, reconhecem as tendências nos desfiles e sabem que nada daquilo pertence ao estilista.
O ato de vestir é como qualquer outro empreendimento estético, que junta objeto, imagem, desejo e prazer. Este não resume a Moda aos tecidos que cobrem o corpo, mas é a partir da roupa que observamos a Moda de maneira mais vívida, sob o nosso olhar e dos outros. A Moda revela-se uma relação entre o indivíduo e o mundo, entre o indivíduo e os outros e entre o indivíduo e a sociedade. Cria-se interações simbólicas em que se trocam e consomem imagem, reconhecendo que o outro faz parte dos jogos de espelho e relações.
Outrar-se está no sentido de vestir-se de outro, de saber que a troca de posições é possível e, por vezes, desejável. Um texto de Clarice Lispector pode nos ajudar a entender melhor “A experiência maior”, constante no livro Aprendendo a Viver (2013), diz: “Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu.”
Foi Fernando Pessoa que inventou o verbo, outrar-se, bem como o substantivo, outragem, representado como um trampolim para o possível, é um devir, vir a ser. Outrar-se, refere-se ao fenômeno de adotar várias personalidades, criar narrativas pessoais, também definido como deixar-se contagiar por algo de sentido novo. Reconhecer o outro, implica em articular uma trama onde a identidade deixa de ser algo fixo, torna-se fluído e gera a múltiplas identidades.
Fernando Pessoa possuía 4 pseudônimos diferentes e dizia: “não há que buscar em quaisquer deles ideias ou sentimentos meus, pois muitos deles exprimem ideias que não aceito, sentimentos que não tive”. É possível encontrarmos uma mulher negra três vezes por dia e em cada momento ela se apresentar “uma outra pessoa”, uma multiplicidade de estilos, roupa, cabelo e adereços, que a permite montar e desmontar visuais. Exploro Clarice Lispector , que diz “Eu poder ser tu sem deixar de ser eu”, precisamos das outras que nos habitam para nos mantermos.
Nessa hibridização estética, o mercado de segunda mão (second hand), o BRECHÓ, ganha conotação de enfrentamento, tombamento e afrontamento, propondo uma catarse através da roupa. Uma Moda materializada no desfile virtual, POVOADA, realizado pela Djembe Produções e Entretenimentos com idealização e produção, desta que vos escreve.

O desfile perpassa por outros seres, discursos e por outras leituras, que impute a roupa e o cabelo como gatilhos pela Silva & Silva Luluzinha Boutique/Brechó sob minha curadoria e o salão Vem Pro Silvia’s sob a curadoria do hair stylist e visagista Clayton Luis, no mecanismo de outragem.
A outragem é perceptível ao conceder as mulheres negras possibilidades, poder e decisões: onde vamos nascer, como vamos viver e quais serviços vamos acessar. Como iremos nos vestir, comportar, seremos fisicamente e até emocionalmente. Há o direito ao grito e ponto final.
O desfile traz como ponto de partida a música, POVOADA, de Sued Nunes por meio da frase: “Eu sou uma, mas não sou só”. Essa multiplicidade na Moda advém do ato e de lugares comuns do vestir e adornar-se, silenciando uma produção interminável de narrativas, através da roupa de segunda mão.
Povoada, és a roupa, de memórias afetivas fazendo-se uma biblioteca vestível que contém uma infinidade de saberes; a mulher. És a mulher negra, povoada de outras mulheres, um aninhamento – um ser que vem de outro ser. És o território, por sua vez, representado pela casa Lapeju @lapejubar, sob a curadoria de Pedro Paulo, um lugar que abriga tribos e fomenta intervenções artísticas, tornando -se uma das peças deste quebra cabeça, chamado identidade.

Idealização e Produção: Fabiana Silva @fabianasilva.jornalista
Co-produção: Fábio Aleixo @fabioaleixo_1970.photoprod
Backstage: Silvia Solange @silsol68
Make Up: Isadora Glória @isadoragloria
Hair Stylist: Clayton Luis e equipe do salão Silvia’s Hair Therapy @vem_pro_silvias
Roupas: Silva & Silva Luluzinha Boutique/Brechó @fabianasilva9536
Local: LAPEJU @lapejubar
Rua Frei Caneca,892
Responsável: Pedro Paulo @peu_lapeju
Patrocínio: Salão Vem Pro Silvia’s @vem_pro_silvias
Parceiros: Pernambuana da Gema (Chapéus) @pernambucanadagema
e Balaio da Gata Preta (acessórios) @belobalaiodagataModelos
Leda Januário@leda.januario
Debora Alcantara@perolamodel
Ana Júlia@aniiinha_rosa
Bruna Oliveira @bruna.bruh.oliv
Isadora Glória @isadoragloria
Celia Moreira @celynhapreta
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Vai ser muito lindo uma saudação aos nossos corpos imperfeitos aos olhos alheios, nosso forma linda de combinarmos nossos coloridos e de juntarmos em tudo isso nossos acessórios que também representam aumento da autoestima e embelezamento do nosso povo preto.
Gratidão pelo feedback Nanci, precisamos reeducar o olhar quando olhamos a beleza negra. Somos lindos.
Nanci de souza Quintanilha continue nos acompanhando. Obrigado!
Bom dia, gostaria de saber para anunciar, quais os tamanhos e valores?
Mande um email para nós, por favor, Sheila: andersonmoraes_coordenador@jornalempoderado.com.br
Obrigado!