Por Alberto Monteiro
Londres 02.07.2025
Há setenta anos, no seu mais celebrado ensaio ”Discurso sobre o Colonialismo” (1955), o martiniquenho Aimé Césaire, grande poeta da negritude e político de esquerda que passou pelas fileiras do Partido Comunista Francês (PCF), condenou a Europa perante o mundo ao apontá-la como sendo indefensável. O veredicto veio na sequência da sua história criminosa e tenebrosa de escravatura de africanos, colonialismo, nazi-fascismo e de racismo.
Durante séculos a barbárie colonizadora europeia continuou seu curso imparável de terrores e horrores. Arrasar, devastar, saquear, queimar, destruir, massacrar, torturar, estuprar, assassinar, tocar terror de todas as formas possíveis, um rol de atos bárbaros realizados por bárbaros ditos civilizados na sua saga “civilizacional” para submeter o outro a seu domínio e assim roubar suas riquezas humanas e naturais.
No mesmo ensaio, publicado pela primeira vez em 1950 em Paris pela Éditions Réclame, então ligada ao PCF, editado e republicado cinco anos depois pela editora Présence Africaine (Paris e Dakar), Césaire escreveu:
“Uma civilização que se mostra incapaz de resolver os problemas que seu funcionamento provoca é uma civilização decadente. Uma civilização que opta por fechar os olhos para seus problemas mais cruciais é uma civilização doente. Uma civilização que se esquiva diante de seus princípios é uma civilização moribunda.”
Para além do bárbaro europeu, Césaire também nos alertava para outro que identificou e o superou: o americano. Sobre ele, nas últimas páginas da sua obra magistral, ele escreve: ”Chegou a hora do Bárbaro. Do Bárbaro moderno. A hora americana. Violência, desmesura, esbanjamento, mercantilismo, exagero, gregarismo, a imbecilidade, a vulgaridade, a desordem.” (p. 82). O bárbaro europeu criou o bárbaro americano e ambos criaram o bárbaro de Israel e a barbaridade, de forma mais aberta ou camuflada, continua sendo uma marca comum a todos.
O mundo está virado de cabeça para baixo. Aqueles que se opõem ao genocídio são os que devem ser prontamente denunciados e destruídos. Os que cometem deliberadamente um genocídio, os que são escancaradamente seus cúmplices e os que o facilitam com a sua indiferença são os que devem ser heroicizados, aplaudidos, compreendidos e poupados.
No último sábado (28), no Festival de Glastonbury, coloquialmente conhecido como Glasto, considerado o maior evento de verão da cultura popular britânica contemporânea, a dupla inglesa de punk-rap, Bob Vylan, e a banda irlandesa Kneecap, entre outras, com suas performances provocativas e questionadoras sobre o genocídio na Palestina, causaram um verdadeiro sismo político e midiático no Reino Unido, Israel, EUA e no chamado Ocidente coletivo e seus afins em geral.
Durante a apresentação de Bob Vylan havia uma tela com a inscrição “Palestina livre: as Nações Unidas a chamaram de genocídio. A BBC a chama de ‘conflito'”.
Em interação com um mar de fãs e de apoiantes da causa palestina erguendo e agitando bandeiras, fazendo-as tremular ao vento, Bobby disparou: ”Death, death to the IDF” (Morte, morte às Forças de Defesa de Israel) declarando em seguida “Claro que sim, do rio ao mar, a Palestina deve ser, será – inshallah – será livre!”
Um coro de pronta condenação seguiu-se e a controvérsia continua em manchetes e artigos de opinião nos jornais, debates acesos nas televisões com condenações de forma mais inflamada ao alegado discurso de ódio e violência contra os judeus quando, a banda, em momento algum fez tal apologia.
A ministra da cultura Lisa Nandy levou de imediato o assunto ao parlamento britânico tecendo duras críticas a BBC e uma investigação criminal foi prontamente iniciada pela polícia local sobre os comentários de Bob Vylan e Kneecap. Na sequência, entre outras punições, a banda Bob Vylan, que tinha uma turnê marcada para outubro próximo nos EUA, teve seu visto revogado.
Respondendo as acusações, a dupla musical de Londres emitiu uma declaração negando as acusações de antissemitismo e continuando a pedir uma Palestina livre. “Não somos a favor da morte de judeus, árabes ou qualquer outra raça ou grupo de pessoas”, escreveu a dupla em uma publicação no Instagram na terça-feira. “Somos a favor do desmantelamento de uma máquina militar violenta — uma máquina cujos próprios soldados foram instruídos a usar ‘força letal desnecessária’ contra civis inocentes que aguardavam ajuda. Uma máquina que destruiu grande parte de Gaza.”
Paradoxalmente, no mesmo dia da atuação da dupla, o site da BBC noticiava o assassinato de dezenas de palestinos em Gaza pelas forças da IDF, perante o silêncio dos profundamente indignados com as performances anti-genocidio na Palestina por parte de artistas em Glasto.
Uma sociedade que conclui que, em vez do extermínio em massa de pessoas inocentes, é um cântico sobre um exército estrangeiro cometendo genocídio que deve ser alvo de uma tempestade de fogo midiático e político é uma sociedade perdida, moralmente depravada e despojada de sua humanidade.
Mas não se pode virar o mundo de cabeça para baixo por muito tempo porque ele teima sempre em voltar a estar como gosta: de cabeça para cima. Um dia haverá o que na língua inglesa se chama de reckoning, ou seja, o acerto de contas. Nesse dia, aqueles que foram os arquitetos e cúmplices dos crimes televisionados mais horríveis e obscenos da nossa era serão responsabilizados no banco dos réus pelo que fizeram e disseram.
E aqueles que se mantiveram indiferentes serão julgados pelo tribunal das respectivas consciências depois de darem conta da dimensão do horror, longe de ser mostrada nas mídias cúmplices dominantes. O que foi mostrado já seria o suficiente para os levar a não se manterem escudados numa indiferença que também ajudou no genocídio de um povo. A história olhará para esse período com choque e repugnância.
A indiferença que ajuda a matar na Palestina, é a mesma que ajuda a matar no Congo, no Sudão, no Iêmen, a ceifar vidas não brancas por racismo na Europa, no Brasil, nas Américas e mundo afora.
Reflitamos!

Sobre Bob Vylan
Para os que não conheciam os Bob Vylan, eles são uma dupla inglesa de punk-rap nascida em Ipswich e sediada em Londres. Seu trabalho apresenta críticas ao establishment britânico, à desigualdade, ao racismo, ao sexismo e à homofobia. Os membros são Bobby Vylan nos vocais e na guitarra, e Bobbie Vylan na bateria, ambos nomes artísticos para manter sua privacidade diante do que eles descrevem como um estado de vigilância.
As letras de suas músicas incluem questões sociais e políticas como racismo, violência policial, desigualdade econômica, acesso a alimentos saudáveis, gentrificação, saúde mental, paternidade, capitalismo, homofobia, masculinidade tóxica, hipocrisia política britânica e a indústria farmacêutica.
O tema das dificuldades de ser um homem negro na Europa é recorrente em todos os álbuns e inclui as dificuldades de saúde mental de homens negros, o racismo institucional que contribui para a pobreza em comunidades negras, a ameaça da polícia e as dificuldades de ser um pai negro em um mundo que ameaça seus filhos.
Os Kneecap vêem da tradição de música de protesto irlandesa contra o colonialismo inglês e em solidariedade aos povos oprimidos do mundo. Não é de admirar q, como cidadãos e como artistas extremamente politizados no contexto da luta contra os opressores e opressões comuns, eles não tenham hesitado em abraçar há muito, muito antes do 7 de outubro, a causa Palestina.










