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Fotogracria: A maior favela do Brasil pelas lentes de uma jovem

Quando alguém fala a palavra “Rocinha”, o que vem à sua mente? O subúrbio carioca, suas favelas e moradores constantemente são retratados pela imprensa com o olhar “de fora”. Mas, e se alguém, lá dentro, tivesse a chance de mostrar o dia a dia da maior favela do país? É isso que a jovem Salem, fotografa e moradora da comunidade, coloca em prática no projeto FOTOGRACRIA.

Salem caiu nas graças da internet, e seu projeto já acumula mais de 24mil seguidores no Instagram, e mais de 130mil no tiktok. Ela é, sem dúvidas, um sucesso!

Conheci o projeto justamente no tiktok, e a ideia principal era fazer uma live, onde a fotografa teria a chance de falar com seus “fãs” e todo público online de uma maneira mais intimista e profunda. A Live não rolou, mas por um motivo ótimo: Salem está com a agenda cheia! Por isso, preparamos uma entrevista no estilo ping-pong:

Fale um pouco sobre o projeto Fotogracria: equipe, quando surgiu, metas e conquistas até aqui.

Salem: “Fotogracria” surgiu como um grito de liberdade. Eu estava cansada das noticias negativas sobre a minha favela, só aparecia no jornal em tragédias, tiroteios… Em 2020 percebi que podia mostrar uma narrativa diferente, mostrar que mesmo com seus defeitos, nós favelados somos humanos e também temos momentos de alívio.

Antes de “estourar” já podia contar com minha família do axé, as crias Moa e Rafa e todo coletivo Vários Corres e da Debs que está sempre trabalhando comigo.

Eu que tiro foto, gravo e edito, mas nunca estou sozinha, sempre estou com os meus de fé por perto, eles são as minhas estrelas!

Atualmente estou montando a minha equipe, ainda estamos fazendo muitos testes e eu não quero falar muito para não estragar a surpresa.

Minhas conquistas, diferente do que pensam, não tem haver com número de seguidores e as vezes em que sai no jornal, passei na televisão, etc… Para mim sempre será a auto estima do morador que aparece nas fotos e sente orgulho de si mesmo.

Minha meta é fazer um livro da Rocinha e mostrar a verdadeira estética brasileira que está nos quilombos, favelas e aldeias, não aquilo que nos empurraram guela abaixo por mais de 500 anos.

Como começou sua história com a fotografia?

Salem: Veio bem antes do “primeiro click”, lá em casa tinha um livro do André Cypriano que retratava a Rocinha com maestria. Visitei esse livro em várias épocas da minha vida e até hoje quando abro aquela capa cinza com as letras amarelas me toca de maneira diferente.

Comecei registrando tudo com celular emprestado, não tinha nem o meu próprio. Trabalhava de modelo eventualmente e foi numa dessas que tive que decidi entre comprar comida ou investir num celular. Eu não recomendo isso, conversei muito com a minha mãe (morava com ela) antes de fazer isso, mas ela concordou e decidimos arriscar.

O risco valeu a pena por que foi o empurrão que faltava pra eu começar a ganhar destaque na cena. Cheguei a fazer publicidade na internet, do produtor Dree Beatmaker para a Redley, com o celular e até hoje não abro mão da ferramenta, já fiz diversas campanhas pra marcas nacionais grandes usando o celular.

Sobre a Rocinha: como os moradores receberam o projeto? A comunidade abraçou a causa ou você sofreu algum tipo de resistência?

Salem: No começo com o celular era muito mais tranquilo, mas quando eu cheguei de câmera houve um leve estranhamento de poucas pessoas. As galera aqui na rocinha fotografam tudo com o celular mas câmeras (principalmente na rua) já não são parte da realidade.

Com certeza mudou tudo o fato de eu ser nascida e criada na comunidade, então se alguém implicasse, sempre tinha alguém perto pra falar, “essa é a Salem, filha da Eliane que morava na rua quatro, a que pegava onda”, aí a pessoa respondia “aaaaaaaaah, te vi crescer menina”. E aí a pessoa até queria aparecer nas fotos.

Eu também tenho bom censo e sei onde posso fotografar e onde não posso, com quem devo falar e quem posso pedir pra fotografar. Quem vem de fora e acha que vai chegar com uma câmera ou celular apontado pra todo mundo aqui e passar batido está enganado. Se você não tiver com um cria da comunidade que conhece e é articulado, é melhor contratar um guia daqui.

Mulher, moradora da periferia do RJ e fotógrafa. Qual o sentimento de ocupar um espaço tão importante e desenvolver um trabalho tão necessário?

Salem: É de muita responsabilidade em muitos sentidos. Preciso ter cautela e reconhecer que muitos que estavam antes abriram portas pra mim, como o coletivo Rocinha Sob Lentes, Renato ERREJOTA, meu primo Anfiibia… E entender que agora também estou abrindo portas pra quem vem atrás de mim, não posso dar mole nos papos nem nas atitudes. A meta é manter Humildade e a disciplina, se eu me distanciar disso, tudo será em vão.

Você acredita ser inspiração para meninas que sonham em fotografar?

Salem: Com certeza, da mesma forma que outras me inspiraram também, essa corrente é infinita. Cada vez que uma de nós vai expor num museu ou sai numa revista é um gás pra todas as outras. Me lembro a primeira vez que a Melissa de Oliveira postou um quadro dela exposto. Sou muito fã da minha amiga Mel, aquilo foi e é um motivo para continuar tentando!

Quais os próximos passos? Como se enxerga daqui 5 anos?

Salem: Estou trabalhando muito pra lançar meu primeiro livro fotográfico e fazer minhas primeiras exposições com impressos, mas é muito chato por que não temos informações sobre nada acessível. Você procura na internet e é um monte de palavras difíceis, parece que é de propósito pra “gente como nós” não chegar lá. A academia, os galeristas e a indústria precisam reaprender a se comunicar com gente simples.

Daqui a cinco anos, por um lado, eu ainda me vejo de Kenner, com minha câmera andando a pé pela comunidade, talvez numa casa melhor, com certeza formada e com pelo menos dois livros lançados. Mas também me vejo viajando, mostrando a cultura das favelas para todo o mundo.

Para concluir nossa entrevista, deixe uma mensagem para a galera das comunidades que te acompanham:

Salem: Cada dia é importante na sua trajetória, comece com pequenas metas, mantenha a fé, o trabalho e a cabeça erguida. Você Já está chegando lá!

*Créditos Foto: BRUNA BLUMENBERG

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