Eu tenho 34 anos, moro em São Paulo e trabalho no Nubank como Program Manager. Eu nasci na periferia de Guarulhos, mais precisamente no bairro dos Pimentas. Um bairro periférico do município de Guarulhos com altos índices de violência. Muitos, mas muitos mesmo, amigos que eu tinha foram presos ou infelizmente morreram. Meu primeiro emprego foi na Feira Livre vendendo laranjas para poder pagar meu curso de inglês. Eu fiquei aproximadamente 4 anos na feira livre. A minha rotina era muito pesada, eu levantava por volta de 4:30 da manhã, chegava na feira, montava barraca pra vender as frutas. Eu então saia da feira por volta de 14hrs, ia para casa e depois pra escola. Por diversas vezes eu dormia na sala de aula por cansaço. Por diversas vezes também eu dormia no caminhão em cima das caixas de fruta pra tentar descansar.
Já na faculdade com 20 anos perdi minha mãe acometida por um câncer. Minha mãe era meu porto seguro, minha conselheira de todas as horas. Foi sem dúvida o momento mais difícil da minha vida. Depois da morte dela, eu passei a morar sozinho em uma Kitnet no centro de São Paulo. De lá pra cá, eu consegui crescer tanto profissionalmente como academicamente. Eu me formei em Turismo, fiz uma transição para a carreira de tecnologia e fiz um MBA em Gestão de Tecnologia. Eu mudei de empresa, passando por BCD Travel, SAP, Zendesk e hoje estou no Nubank.
Eu sempre sonhei em estudar em Harvard, mas sempre me pareceu um sonho muito distante. Em 2016, comecei a planejar meu sonho. Encontrei o Mestrado em Liberal Arts com foco em Business Management na escola de Harvard Extension School e comecei o preparativo para TOEFL e demais provas. Em 2017, apliquei, fui admitido e comecei meu mestrado. Foram um total de 48 créditos, dentre as matérias eu fiz, Micro Economia, Contabilidade, Marketing, Liderança dentre outras. Foram incontáveis horas de leitura, escrevendo artigos e muitos finais de semana estudando. Em 2021 eu fiz a última matéria e finalmente em maio desse ano 2022 eu fui até Boston para a minha formatura.
Já estudando em Harvard, sofri muito preconceito e ceticismo. Já ouvi coisas do tipo, “você está mesmo estudando em Harvard?” ou, “mas você toca cavaquinho e estuda em Harvard?”
Ainda tenho muito pela frente, mas eu sinto que hoje eu já consigo compartilhar minha história e tento influenciar outros jovens negros a perseguirem seus objetivos e, acima de tudo, aumentar a representatividade. Na minha juventude, eu tinha muita dificuldade em sonhar, pois me faltavam referências pretas. Me lembro quando o Barack Obama ganhou a eleição americana para presidente, o quanto aquele momento foi importante pra mim. Eu sei o quanto é importante ter representatividade e conseguir se ver naquele lugar.