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ZUMBI NÃO TINHA ESCRAVOS? ZUMBI TINHA ESCRAVOS ??

imagem da internet
Written by Max Mu

Me ajudem a percorrer o tema…

Quem era ou não Zumbi e se tinha ou não escravos é extremamente insignificante para a história das mais de 3000 comunidades Quilombolas existentes e resistentes sem reconhecimento governamental e os 2.465 Quilombos reconhecidas pelo Governo Federal.

Zumbi dos Palmares é presente apenas nos últimos 20 anos mais ou menos dos mais de cem anos de existência e resistência de Palmares. Os primeiros registros da existência do Quilombo dos Palmares é de 1580; e datam a sua destruição geográfica em 20 de Novembro de 1695; 115 anos depois.

Se hoje demoramos para registrar uma iniciativa comunitária imagine naquela época.  Toda escrita do Leandro Narloch, no livro, “Guia politicamente incorreto”; se prejudica. Zumbi dos Palmares não criou o quilombo, chegou numa comunidade já organizada. E torna mais insignificante ainda a sua tentativa de pejorar Zumbi dos Palmares, e faz mais insípida a aspiração de demoniza-lo.

A destruição geográfica, e a morte de Zumbi não acabaram com ideal de liberdade e igualdade. Os Quilombolas se multiplicaram e resistem até hoje.

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Ao refletir sobre essa versão da história útil ao racismo estrutural tentando compartilhar a culpa e dividindo o ônus com os negros; só arvora o egoísmo para continuar com os 100% de bônus para brancos. Os danos causados pela escravidão ainda é dos negros. Os bônus, os lucros e os saldos são todos dos Leandro´s.

Esse é um esforço consciente ou inconsciente de se isentar de reparações históricas e negar políticas públicas as pessoas negras. Utilizando do privilégio para ampliar o privilégio.

 

SISTEMA ESCRAVOCRATA E MERCANTILISMO:

 

Todo Sistema é feito por Instituições; Instituições são feitas por pessoas, e pessoas são diferentes, adversas e inovadoras para o bem e para o mal. Mas pessoas e seus ideais não determinam ou anulam um Sistema.

Não importa se existiram exceções de 03 ou 10 negros que tinham pessoas escravizadas, o sistema escravocrata é uma ideologia eurocêntrica, criada no séc. XV para gerar receita para Europa cometendo crimes contra a humanidade. Traidores, pelegos e oportunistas também há em todas as praças de Judas a Napoleão, mas não alteram a luta de Cristo ou Napoleão. E por alguma razão desconhecemos uma única família negra herdeira dos ganhos da escravidão. E temos uma lista enorme de famílias brancas como: Neves, Magalhães, Matarazzo, Sarney, Dória, Andradas e outras herdeiras milionárias da escravatura.

Não se trata de avaliar o caráter do indivíduo e suas estratégias de buscar a dignidade, e sim de se aprofundar nas CAUSAS e OBEJTIVOS das lutas travadas em acordo com os seus princípios e seus valores em relação à época e ao Estado em que viviam.

Para ajudar o autor, que não sei como pode obter espaço para publicar, aliás, sei, tem o privilégio de ser “Branco”; vamos analisar a fundo:

ESCRAVO. Escravos existiram entre os indígenas; na Grécia Platão tinha escravos brancos, os feudos tinham os servos, e os Judeus também já foram escravizados. Porém, só o mercantilismo, do séc. XV / XVI decidiram na Europa, Junto com o Papa, tirar a alma dos negros e os transformarem em mercadorias simplesmente.

Por tanto no Brasil ter escravos significava ser escravocrata: Ter dinheiro, comprar com registros oficiais, pagar impostos para produzir bens agrícolas e acumular capital, comprando mais terras (ou roubando e grilando dos índios); produzindo mais cana de açúcar e comprar mais escravos sempre gerando renda para Coroa Européia.

Sendo gentil com o autor façamos uma correção semântica, Zumbi tinha prisioneiros ou pessoas sequestradas, que por ventura trabalhavam na terra para sustentar os guerreiros que lutavam contra o sistema Escravocrata. Será?

Vamos pensar, prisioneiro e sequestrado é status de um cidadão livre detentor de amplos direitos que foi subtraído de seus direitos e cerceado de sua liberdade.

Olha só que engraçado estão acusando Zumbi de fazer o que eles fizeram com os africanos livres!!!!

No Brasil os negros escravizados eram sequestrados da África (não importa os meios). Praticando generosidade a aberração sociológica, aceitaremos que Zumbi tinha prisioneiros, mas para continuar na infantil afirmação do autor precisaremos de reforço da ironia e muita criatividade  para entender como obtinham esses prisioneiros.

Zumbi devia encontrar muita resistência nas Senzalas fétidas, úmidas e super lotadas a convocar as pessoas para um Quilombo. Os ‘senzalados’ deviam aceitar as chibatadas a cada cana que caia no chão com um prazer delirante e jamais abandonariam por livre arbítrio tal prazer, tais tatuagens lindas que as cicatrizes de tanta tortura agraciavam a cara e a pele.

Então Zumbi não comprava ‘prisioneiros’ de ninguém, e como era perseguido diariamente pela Coroa não poderia vendê-los nos portos, e não poderia comprar e nem adquirir terras nominais e nem fazer grandes investimentos, nada de mercantilista poderia exercer ‘o terrorista mais procurado’ do sistema escravocrata.

Foram mais de dezesseis excursões militares em busca de Zumbi do Palmares. Não poderia vender e nem comprar nada. Ainda se esforçando para entender esses ‘prisioneiros’, consideramos os prisioneiros tristes de estarem sendo roubados de suas caprichadas e confortáveis senzalas, e de sentirem saudades dos bonzinhos capitães do mato e seus Srs de Engenho, e que demonstrassem resistência aos Palmarinos. Zumbi deveria ter belas carruagens, pois para arrastar a força massas de escravos contrariados seria necessário pelo menos três ou quatro homens por escravo para carregar nas costas.

Já que Palmares ficava a 500 metros de altura, e mais de 20km da fazenda mais próxima, deveria ser facílimo, enfrentar os vários capangas, capataz, capitão do mato, polícia carregando prisioneiros a contra gosto.

A equipe tática de Zumbi conseguia romper uma senzala e levar pessoas por mais de 20 km como prisioneiros. Se escondendo pelos cantos das cidades, e subindo as matas fechadas. Será? Fico eu imaginado os carros pretos de Zumbi, Blazer e Vans, sequestrando os escravos dessas fazendas que não queriam ir e não resistiam lutando e nem chamavam o seu bondoso e irmão fazendeiro barão.

Se Zumbi era escravocrata por que foi perseguido?

Por que Portugal fez acordo para libertar os Quilombolas em negociação com Ganga Zumba, se os Quilombos não traziam promessas de liberdade?

A quem interessa relativizar a escravidão? Qual razão de ameniza-la dando ares de violação de Direitos Humanos ao Quilombo e não ao SISTEMA ESCRAVOCRATA?

Qual a intenção em criminalizar um entre os centenas de Quilombos brasileiros? Quilombos existiram de norte a sul independente de Palmares, sempre lutando pela liberdade.

O RACISMO NO BRASIL E ESSE ARGUMENTO:

A escravidão no Brasil foi a ultima do planeta a acabar, com 50 anos de atraso. Os Fazendeiros não se importavam de passar vergonha internacional. Dom Pedro II perdeu o trono por que agiu pró abolição. Mesmo sob pressão internacional e interna D. Pedro II não conseguia convencer os barões e donos de escravos a aderir a abolição. Aqui já é bem difícil entender qualquer dissimulação e compartilhamento de culpa.

O Brasil no seu pós-abolição em 14 de maio de 1888; as 14h ( 19 hora depois da lei áurea) criou as leis:

  • Da Vadiagem: Quem não tiver carteira de trabalho no Bolso ou endereço fixo poderá ser preso.
  • Da Resistência a prisão: Ninguém poderá resistir à voz de prisão de um oficial da lei.

Durante a primeira republica foram proibidas as manifestações culturais negras; religiosas e artísticas. Negros foram proibidos de jogar futebol e sair em fotos públicas. Um verdadeiro retrocesso. Portanto, apelar para uma individualidade de um curto mandato do general Zumbi dos Palmares para amenizar o racismo do Estado Brasileiro, só reforça a preguiça branca de fazer esforços para mudar seus paradigmas e as consequências das desigualdades geradas pelo escravismo.

 

PALMARINOS NÃO PODIAM SAIR DO QUILOMBO:

Se você vive num sistema escravista, onde todo quilombola é perseguido pela Coroa, capitães do mato, caçadores de recompensa, e os negros fugidos tem cartaz de procura-se na cidade passear para matar saudade nos canaviais, pode por em risco o cidadão africano e toda a luta da liberdade que visa derrubar um SISTEMA.

Qualquer ameaça de traição interna, espionagem e delação para entregar o quilombo ao Sistema Racista, é bem provável que fosse considerado um ato de desagravo e a punição fosse mesmo a morte ou ao trabalho vigiado; não por apologia ao escravismo mas por proteção a luta pela Liberdade e pelo fim do Mercantilismo Escravocrata.

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ORIGEM DOS QUILOMBOS:

O escritor Leandro Narloch, em entrevista a Revista Veja, disponível no YouTube, e na Globo News, afirma que seu livro tem apenas o objetivo de irritar o maior número de pessoas, que não é um livro de História, que é parcial e que sobre Zumbi dos Palmares só encontrou 7 documentos. Por tanto existe um uso exagerado dessa versão provocativa como base de solidificar alguma opinião sore esse episódio da história. O autor afirma que constrói um quilombo a partir da realidade do século XVII.

Mesmo ele sendo criado no século XVI. Ele também age como um bom racista desumanizando a população africana, alegando humanizar Zumbi dando-lhe traços de psicopata.

E quando ele referencia as estruturas políticas da África, desumaniza as pessoas ao esquecer dos processos psíquicos humanos de transformação  sob tortura. Por mais que nações africanas e pessoas em África fossem inimigos e lideres cruéis; meses num calabouço de um navio negreiro, vendo pessoas morrerem e adoecerem ao seu lado,  algemados e presos aos grilhões obrigados a jogar os mortos ou doentes vivos com risco de contaminar os demais ao mar, são vivências que mudam profundamente as pessoas. Essa viagem é mais do que o suficiente para uni-los contra quem comanda e opera o navio. Se corinthianos e palmeirenses ficassem presos em um estádio de futebol, proibidos por lei de sair em qualquer circunstância rapidamente se uniriam pela liberdade, por muito menos.

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Esquece também que o torturado raramente quer ser igual ao carrasco. E que ao chegar no Brasil e passar pela escravidão mercantil, a busca da liberdade é uma luta sistêmica, um ideal moral; muito provavelmente desejariam a diferença por contraste e a ‘não semelhança máxima’ com o seu algoz.

O pesquisador como um bom eurocêntrico, falha na sua pesquisa, e não ouve o ‘objeto’ da pesquisa, sim trata como objeto e não como pessoas. Nos três mil Quilombos do Brasil, na sua cultura oral, nas suas referencias culturais e tradicionais, e nas suas arquiteturas não há indícios de pelourinho, senzala e outras simetrias.

Já na sociedade escravista; fora dos Quilombos até hoje existem a objetificação do corpo negro, o genocídio, a desigualdade social  que fazem  simetria e analogia ao modelo colonial, até amarrando infratores em postes e o humilhando como um Coronel ou Senhor de Engenho o faria. Existem pessoas usando as mesmas ofensas racistas em estádios de futebol e redes sociais do que em 1720.

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No Quilombo a tradição ainda é de resistência. Existem netos de pessoas escravizadas vivos. Quem comemora 87 anos em 2017,  nasceu em 1930, se o parto dessa pessoa foi feito pelo pai com 50 anos, ele teria nascido em 1880. Portanto a oralidade ainda é muito próxima a nós. Não faz tanto tempo a escravidão assim e podemos ouvir a ancestralidade; antes de fazer livres interpretações.

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O IBGE, diz que de 04 desempregados em 2017, 3 são negros. Isso é sequela de um sistema onde apenas um se beneficiou. https://g1.globo.com/economia/noticia/637-dos-desempregados-no-brasil-sao-pretos-ou-pardos-aponta-ibge.ghtml

Fico indignado, com ânsia de ver teóricos se esforçarem pelo retrocesso e não pelo progresso. Em um país onde os fazendeiros queriam indenização por pessoa abolida, e até hoje se negam a devolver os direitos de todos os trabalhadores de 300 anos, direitos morais, civis e trabalhistas. E esse é o que parece o único objetivo de ensaios e livros como esse, destituir as políticas publicas de reparações históricas, já que muitas trouxeram no seu contexto alusões a um dos milhares de guerreiros pela liberdade  Zumbi dos Palmares.

Sobre  livro não de história tão usado por alguns segue o comentário de um filósofo:

https://www.youtube.com/watch?v=jw0_sKp4e1s

 

By Max Mu

Texto original 2014 – Adaptado em 2017

 

Sobre o Autor

Max Mu

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