EDITORIAL

Justiça Brasileira: Somos Fogo!

Written by Anderson Moraes

 

 

 

 

 

 

 

A vida não começou hoje, ela se inicia do fogo, lá atrás. Os religiosos falaram de um casal no Éden e os cientistas apostaram em um Big Bang.

 

Desde tempos imemoriais, algumas cenas não mudam. Passados 200 mil anos desde o alvorecer da humanidade, as histórias se repetem.

Há o tacape assassino, a guilhotina, a máquina de triturar ossos da Inquisição e, hoje, neste trajeto maléfico, a toga.

É fácil entender que existe um tabuleiro nefasto no jogo do poder. E há perigo quando panelas batem, buzinas tocam e pobres se juntam inocentemente aos movimentos de ódio das classes médias frustradas.

Hoje, muitos desses estão comemorando a condenação, em um processo recheado de falhas, do presidente Lula, um retirante nordestino que ousou lutar por dignidade para os mais humildes.

Volto ao pensamento inicial. O fogo primeiro não foi repartido entre todos da aldeia. Foi usado como peça de força coercitiva.

Revolucionários eram aqueles que sabiam compartilhá-lo.

O que persiste, até os dias atuais, é essa tensão entre os estúpidos gananciosos e os solidários que se atrevem a dividir os progressos humanos.

Ledo engano do proletário que, vestido de boçal verde e amarelo, encontrará, amanhã, no centro de produção, o promotor das fuzarcas do pato.

O primeiro retornará como otário, ameaçado pelo trabalho intermitente e pela extinção de seus direitos previdenciários.

O outro, lá da sala da chefia, vai rir sarcasticamente, satisfeito pelo plano bem executado.

No corredor, ambos sorrirão. O primeiro como trouxa. O segundo como beneficiário da ignorância do subalterno.

O primeiro, esfolado desde sempre, é bem capaz de imaginar que o patrão é bondoso, pois lhe oferecerá uma sala para trabalhar até mais tarde, e assim cumprir as metas da produção.

O segundo, privilegiado de sempre, certamente festejará a mais-valia, o valor roubado que lhe permitirá gozar de luxuosas férias na cafona Miami.

O trabalhador iludido vai acreditar na meritocracia e considerar que o burguês lhe faz um bem ao negar-lhe o próprio direito.

E pensa como é bom não ter que enfrentar a PM; afinal, o Datena disse que isso é coisa de bandido.

Pensará como é bom que seus filhos, negros, pobres, periféricos, refugiados, do mato, poderão aprender sobre mérito, competitividade e sacrifício.

Até imaginará que saúde e educação devem ser mesmo pagos, pois “vagabundo não merece esmola do Estado”.

Pessoa poetou: quem quiser passar além do Bojador, tem que passar além da dor. Talvez seja este o sentido de toda essa tragédia nacional.

Talvez as pessoas precisam sofrer para valorizar o que é justo, reto e correto.

Porque a dor pode ensinar, como ensinou ao menino retirante que engraxava sapatos. E que só virou presidente para acabar com a aflição de seus iguais.

Não falei. E não vou mais falar sobre o jogo de hoje. Porque esta disputa perdemos.

Falemos da livre interpretação da tradição ioruba, aquela da vida e de um dos elementos da natureza, o fogo. Ele é o símbolo de Xangô, o orixá.

Foi aquele que fez de “fogo, trovões e raios”, instrumentos para lutar por misericórdia, justiça e lealdade. Xangô nos ensinou a tomar o fogo deles.

Agora, vale lembrar aqueles que, de posse do artefato combustível, enganaram os “doutos” da época e se tornaram referência da necessária rebeldia.

Falo de Lima Barreto, o escritor; de Carolina de Jesus, a escritora; e de Luiz Gama, advogado, um dos maiores abolicionistas do Brasil.

Cada qual usou o fogo que tinha para superar as dificuldades. Foi a fome o preconceito, no caso de Barreto; foi a fome, no caso de Carolina; foi a escravidão, no caso de Gama.

Nesta guerra do fogo, todos eles obtiveram êxito.

Se a lágrima brota, não é por tristeza. Se a mão treme, não é por medo. Se o coração palpita, não é por dor.

Se me sinto só, enquanto a pena risca o papel, não é por solidão. Se a poesia se esvaiu não é por falta de amor.

Se me tiram quase tudo, me sobra, porém, o fogo. É aquele que queima a madeira e move a locomotiva. É aquele que aquece a alma e oferece luz sobre o caminho.

Portanto, não serão três magistrados, suspeitos da toga, que vão decidir nossas vidas.

Pois para cada juiz, sim, escravocrata e burguês, sempre existirá um dos nossos, inspirado por Xangô; que tocará o coração dos injustiçados e constituirá sabedoria para o contra-ataque.

Então, fiquem todos alertas e saibam: o nosso fogo não se apagou. Ele foi recolhido para reabastecer-se de combustível.

Reanima-se a alma. Logo mais, estamos reconstituídos! Vontade de lutar!

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Anderson Moraes

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