O SAMBA NÃO TEM FRONTEIRAS

O Samba não tem fronteiras.

Written by Onesio Meirelles

 

 

Salve amigos, estamos no mês de novembro, mês de Zumbi dos Palmares,  morto em 20 de novembro de 1695.

Então resolvi fazer uma homenagem a uma mulher  negra guerreira  e que faz jus ao nome que tem.

Geisa Ketti, filha de  um ícone  do samba, que fez história com o nome de Zé Ketti. Um compositor que abriu as portas para  muitos outros sambistas. Um compositor que fez o samba “A voz do Morro” há mais de 60 anos que continua sendo cantado nas rodas de samba do Brasil em especial do Rio de Janeiro.

Filha de um homem que trabalhou com Nelson Pereira dos Santos no pioneiro filme do “Cinema Novo”  “ Rio Quarenta graus” cuja trilha sonora  foi de sua autoria onde o samba citado faz a abertura do filme na voz de Jorge Goulart.

Filha de um sambista que uniu o samba do morro com o samba do asfalto da zona sul carioca através da sua amizade com o Cantor/compositor Carlinhos Lira um dos principais representantes da bossa nova ao fazer um pacto com este de leva-lo a conhecer a classe musical da zona sul e ele os levaria para conhecer o samba do morro e assim o fez.

Um homem que sugeriu ao Mestre Cartola a criação das rodas de samba no Restaurante Zicartola de propriedade do mestre e sua esposa Dona Zica.

Um compositor  da escola de samba da Portela e que levou para essas rodas no Zicartola, os intelectuais da zona sul que lutavam contra a Ditadura Militar e esses como Carlinhos Lira e Nara Leão  tornaram-se figuras constantes naquela casa de samba.

Um sambista que não ignorou os velhos sambistas já esquecidos como Ismael Silva e muitos outros que chamados por ele se apresentavam no Zicartola..

Um homem que até o nordestino João do Vale que não era sambista foi  levado por ele  para lá onde se apresentava com suas obras.

Filha do autor de “Máscara Negra” um sambista que influenciou a musa da bossa nova Nara Leão que incluiu em seu primeiro disco o samba “Diz que fui por aí”.

Um homem que tinha em seu samba “Opinião” como o maior sucesso no Zicartola ao ponto  dos intelectuais da zona sul, representantes da Une- CPC escreverem um show teatral musical com o título deste samba, “Opinião”.

E assim Oduvaldo Viana Filho, Paulo Pontes e cia escreveram  a historia que teria como protagonistas Zé Ketti representando o malandro do morro, João do Vale representando um nordestino e Nara Leão uma dama da sociedade.

Um homem  em que além do seu samba “Opinião ter dado nome ao show, também apelidou o Teatro de Arena onde era apresentado o evento, “Teatro Opinião”.

Um artista que ao ser inquirido por Nara Leão que por doença estava se afastando do espetáculo e trouxe uma novata da Bahia não muito bonita para substituí-la quis saber o que é que ele achava.

E que ele disse pra ela que a aparência era irrelevante o importante era a voz.

E assim Maria Bethânia cantando “Carcara” de João do Vale no lugar de Nara Leão surgiu para o Brasil.

Geisa Ketti é filha deste já falecido sambista que se preocupava com os destinos do Brasil na época da Ditadura Militar e que se arriscou a ser preso ao burlar a segurança da Embaixada  da Bolívia para confortar os brasileiros exilados que seriam enviados para outros países, dentre eles José Serra, Artur da Távora, Marcelo Cerqueira e Joel Rufino.

E que com uma caixinha de fósforo fez um show a capela para eles irem com uma boa lembrança do Brasil, o Samba.

Um sambista que lançou Paulinho da Viola como cantor em seu Conjunto “ A Voz do Morro” e que juntamente com Cabral pai apelidou Paulo Cesar Farias com esse nome em homenagem a Mano Décio da Viola.

Um líder arrojado grande incentivador dos compositores  de samba, incentivando-os a se profissionalizar.

Geisa Ketti é filha dele, mas  também  está construindo sua história, de outra forma se dedicando ao samba e a cultura popular.

Criadora da ONG Movimento Culturas já Engenho da Rainha- MOCAJER  com promoção de várias ações culturais e sociais como bailes para a terceira idade e palestras de conteúdo social, Geisa Ketti viu seu projeto do Ponto de Cultura Zé Ketti ser aprovado pelo Minc.

Neste projeto no qual passaram várias crianças  já hoje adultas que tiveram aulas de música, canto, de violão e percussão tomando novos rumos em suas vidas..

A mulher Geisa Ketti  que foi diretora cultural da Associação da Velha Guarda das Escolas de Samba do Rio de Janeiro nos anos 2000.

Que  já foi diretora cultural do GRES Estação Primeira de Mangueira.

Que já foi Secretaria Nacional de Cultura do Congresso Nacional Afro Brasileiro-CNAB com sede em São Paulo e que como uma das representantes desta entidade participou do Congresso da MERCOSUL pelos direitos da mulher latino-americana em Brasília onde recebeu um Certificado da Secretaria de Governo.

Uma mulher que tem uma moção da Câmara dos Vereadores da Cidade do Rio de Janeiro e outra da Cidade de Duque de Caxias.

Uma mulher que já recebeu da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro um certificado pelo Dia Nacional do Samba em consequência de sua atuação neste seguimento da cultura.

Essa mulher que já foi em Brasília participar de uma passeata de reivindicação de salário igual de mulheres e homens que exercem a mesma função.

Geisa Ketti que em defesa da cultura carioca, concorreu ao cargo de conselheira do Conselho Estadual de Políticas Culturais  como representante da Cultura Popular que foi eleita como suplente, mas sua atuação foi acima da expectativa.

Essa é Geisa Ketti que pela sua brilhante atuação neste Conselho, foi convidada a compor uma chapa  como Vice presidente do Conselho com Ivan Machado um negro, produtor da baixada fluminense como Presidente e que prontamente aceitou e numa disputa com uma chapa elitizada  venceu o pleito e hoje pode se dizer, fez história.

A primeira chapa formada por dois negros  um da  zona norte do Rio de Janeiro, ela, outro da baixada fluminense, ele a comandar um Conselho do Governo Estadual do Rio de Janeiro, representando a Sociedade Civil.

Salve Zumbi dos Palmares. Salve o mês da Consciência Negra- 20 de novembro  de 2017.

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o Autor

Onesio Meirelles

Onesio Meirelles, Contador, Advogado, OAB RJ 79.931, Pesquisador, Agente Cultural, Escritor do Livro Mangueira no Tempo da minha Avó.

Desde 2005 atua como Diretor Jurídico da Federação dos Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro. Foi Vice Presidente Financeiro do GRES Estação Primeira de Mangueira durante o período de 2009/2010. Foi Presidente da Velha Guarda do Grêmio Recreativo Escola de Samba Boêmios de Inhaúma na gestão de 2000/2003. Foi Fundador e Diretor do Bloco Carnavalesco Balanço da Mangueira de 1974 à . Foi Diretor Jurídico da Associação da Velha Guarda das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e participou do Departamento Cultural e de Projetos Especiais.

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