COLUNISTAS POLÍTICA

O inimigo Invisível

Crianças sendo treinadas pelo Estado Islâmico

Estado Islamico

 

Terminada a Guerra Fria, com o colapso da URSS em 1991, o mundo presenciou uma hegemonia do Capitalismo e, de quebra, do “modo de vida americano”. Sem um inimigo físico, real e com endereço certo, como era o caso da União Soviética, os Estados Unidos reinaram como única superpotência do planeta até o desastroso contra-ataque muçulmano, protagonizado por Osama Bin Laden, ex aliado da CIA, no dia 11 de Setembro de 2001. O Ataque as Torres Gêmeas deu início ao processo histórico conhecido como “Guerra ao Terror” cujas principais características foram ataques e invasões, ao Afeganistão, suposta base de operações da Al Qaeda, e ao Iraque, onde Saddam Hussein, supostamente, esconderia armas químicas (uma fraude comprovada pelos relatórios da ONU) para serem utilizadas contra alvos americanos e europeus.

 

Diferentemente da Guerra Fria onde havia um inimigo público, com localização fixa, na “Guerra ao Terror” isso não acontece pois o inimigo não é físico mas sim ideológico e tem na religião Islâmica sua principal vertente. O Islamismo surgiu quando o Profeta Maomé teve contato direto com o Arcanjo Gabriel que lhe concedeu uma missão: Pregar a palavra de Alá (Deus). Com o passar dos anos a religião passou a ter muitos adeptos, tornando-se, atualmente, na segunda maior religião monoteísta do planeta, em franco crescimento para consolidar-se como a maior no número de adeptos, superando o cristianismo. A religião islâmica, como todas as outras, é baseada no amor, na tolerância e no perdão mas, tal qual o cristianismo durante a Idade Média, é alvo de manipulações por determinados grupos que, utilizam-se da fé e da falta de esperança das pessoas para manipula-las. No contexto atual, onde a sociedade capitalista é movida pelo acúmulo de capital, principalmente nos países mais pobres onde persiste enorme desigualdade econômica, aliando-se a falta de um sistema educacional baseado na razão científica,  temos combustível perfeito para cooptar fiéis a causa religiosa. Milhares de jovens, geralmente pobres, em busca de melhores condições para suas famílias, se aliam a Al Quaeda e ao Estado Islâmico, sob a promessa de que suas famílias serão amparadas e que terão a paz e a “glória no além”. A junção entre Estado e Religião (Teocracias) é um fator determinante para que tanto a Al Quaeda como o EI possam ter incontáveis recursos, assim como seguidores. Com medo de desobedecer a legislação do país e, de quebra, a legislação religiosa (já que nas Teocracias ambas são indivisíveis), muitos jovens acabam cumprindo com rigor as metas “terroristas”, vindo à tornar-se estatísticas nessa guerra sem fim.

 

Ao longo da história os povos Ocidentais interviram direta ou indiretamente na estabilidade dos Estados Árabes, a começar pelas Cruzadas, que deixou sequelas tão profundas no imaginário árabe que resultou no surgimento do conceito de Jihad, a “Guerra Santa” onde os inimigos de Alá seriam destruídos. Além da questão histórica, fundamental para compreender os motivos dos contra-ataques muçulmanos, temos a questão econômica onde o Oriente Médio, desde os primórdios da civilização, esteve em evidência, ora pelo solo fértil (que lhe rendeu o apelido de Crescente Fértil) graças aos três grandes rios locais (Tigre, Nilo e Eufrates), ora pelos magníficos poços de petróleo, o principal combustível fóssil do planeta. A incansável busca por petróleo fez os Estados Unidos ingressarem em duas grandes Guerras do Golfo, ambas feitas pela família Bush e, por mais que Saddam Hussein e Osama Bin Laden tenham sido mortos pelas tropas da OTAN, o mundo não encontrou a paz, pelo contrário. Grande parte dos países que foram alvos de intervenções americanas, pioraram, vide o Iraque e o Afeganistão, em francos processos de desmembramentos cujos territórios, hoje, estão sob domínio do Estado Islâmico. Se a Al Quaeda saiu de cena, teve um substituto a altura cujas metodologias causam arrepios em qualquer escritor de ficção científica. Prisioneiros de guerras decapitados, incendiados, crianças sendo treinadas para executar “inimigos”, tudo isso filmado e exposto, cruelmente, pelas redes sociais. Será que atacar fogo com fogo, é a solução? É possível dialogar com fanáticos religiosos?

 

As constantes intervenções Norte-Americanas e Europeias nos Estados do Oriente Médio trouxeram consequências desastrosas para o mundo e, mais do nunca, geraram uma guerra eterna, cujo inimigo, ideológico, invisível, pode estar em qualquer lugar do planeta. Talvez a única de forma de combate eficaz ao terrorismo, seja através do respeito e da tolerância, tão escassas nos dias atuais, de extremismos tanto no Oriente Médio quanto no Ocidente capitalista. No final, como dizia o mestre Eric Hobsbawn no título de uma de suas obras, “vivemos a era dos extremos”, onde o diálogo é inexistente e o que sobrou foi o fanatismo.

 

Vivemos a era dos extremos, onde o diálogo é inexistente e o que sobrou foi o fanatismo.

Sobre o Autor

Prof Diogo Dionizio

- Historiador
- Professor de História na Rede Pública de São Paulo (SEE e SME)
- Pedagogo
- Militante da UNEGRO Mogi das Cruzes
- Militante do Coletivo ORUN (Organização e Resistência União Negra)

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