POLÍTICA

O depoimento de Lula e a encruzilhada da esquerda

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Como é sabido de muitos, o evento do depoimento do ex-presidente Lula em Curitiba dominou a mídia nacional essa semana. Também é sabido de todos ou de muitos os interesses puramente mercadológicos de nossa mídia. As emissoras de televisão e os jornais transformaram o episódio do depoimento em um circo ou, o que é pior, em uma batalha Marvel entre Lula e Moro. A cada dia mais as nossas mídias se aproximam de produções baratas e de baixíssima qualidade, algo como um fastfood, sanduiche e fritas, ou pior que isso, uma mentira simples e barata. Sobre o assunto vale ler a última reportagem de Sakamoto.

Esta em sí é uma temática que deve ser discutida, mas não é o tema do artigo. A discussão maior, que não pode se perder, orbita nos rumos da esquerda. Moro pode não ser o melhor juiz a conduzir o julgamento do ex-presidente, mas há um ilícito a ser julgado. Houve um esquema de corrupção que envolveu o PMDB, o PT, o PSDB e marginalmente outros partidos. O partido, que governou o país e tanto fez por ele, está atravessando lides nunca antes alcançados. Para melhor vislumbrar o tema, vamos retornar no tempo.

O Partido dos Trabalhadores surgiu, há décadas atrás, como referência internacional de esquerda num país que começava a re-experimentar a prática democrática. Falo aqui referência internacional porque teve entre seus  fundadores e apoiadores figuras de renome dentro e fora do país, como Florestam Fernandes e Celso Furtado. Os mais brilhantes intelectuais brasileiros defenderam o partido que, anos mais tade, com Luis Inácio Lula da Silva retirava milhões da linha da pobreza. Naqueles anos o partido gravava seu nome na história nacional. Fazia se imprescindível para o crescimento e atenuação das desigualdades que tanto nos afligem.

Então surgiram denúncias de corrupção. Nomes como Cristovam Buarque, Heloísa Helena e Marina Silva deixaram a legenda. Muitos outros fizeram o mesmo. Mais tarde a militância ainda acreditava no partido. Na campanha pela reeleição  de Dilma defendia-se a “ guinada a esquerda”, porque de todos era sabido que, com o poder, o partido esquecera um pouco das causas sociais. Frei Beto bem disse que o PT na atualidade só se lembra dos movimentos sociais quando em crise. Seriam estas crises de identidade? O ideário dos militantes em muito diverge da motivação de seus líderes, de modo que não é possível desvelar as reais motivações dos caciques.

Hoje vivemos uma realidade diversa. O ex presidente Lula é julgado por possível envolvimento em um esquema que desviou bilhões dos cofres públicos. Existe um sombrio recrudescimento da direita. Surgem Bolsonaros e outras figuras delirantes. O padecimento da esquerda refletiu-se nas urnas.

A esquerda vê-se enfim em uma encruzilhada. É hora de uma profunda reflexão. Sem esta os partidos descambam para políticas de centro ou de direita. Sem esta se desvirtuam os propósitos.  Então, que rumo tomar agora?

Um caminho é pela reorganização dos movimentos de esquerda. O PSOL evitou montar chapas com o PT nas últimas eleições municipais em todo o país. Menor foi a quantidade de políticos  eleitos em legendas de esquerda, mas verdade seja dita, o PSOL foi um dos partidos que cresceu nesse contexto. Merece destaque a popularidade de Freixo, que disputou segundo turno no Rio de Janeiro; a guinada de Elson ( PSOL- Florianópolis), que quase chegou a disputar o segundo turno na capital catarinense e; vários outros exemplos, com a eleição de inúmeros vereadores da legenda. A esquerda pode se reiventar, enfim. Nada se dá de uma hora para outra, mas ela pode voltar. Por ora ocupa a oposição, espaço onde foi mais importante nos momentos críticos. Por último, existe ainda a possiblidade de que os partidos que se desvirturaram do caminho recuperem o seu rumo. O PT é o maior implicado. Será essa uma tarefa fácil? Certamente que não. No entanto será possível se a sua militância se posicionar a tempo. A tempo de evitar um desastre maior.

Sobre o Autor

Rodrigo de Novaes

Escritor, ensaísta, médico de família e epidemiologista. Mestre em Epidemiologia pela UFSC. Escreve ao jornal Empoderado. Autor de " A última aldeia"

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