POLÍTICA

O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, uma experiência socialista ignorada na história brasileira

caldeirao

Em meio à crise política que se perpetua no cenário nacional perdemos a fé. Deixamos de acreditar ,com razão, nas instituições que tanto tem logrado o brasileiro. Momentos como esse, de desesperança, rementem à necessidade de bebermos em águas menos melancólicas.

Nesse sentido, o Jornal Empoderado regressa no tempo, resgatando um registro curioso de nosso passado, ignorado de muitos.

O ano era 1926. Próximo à cidade de Crato, no Sertão do Cariri, o beato José Lourenço fundava a comunidade de Caldeirão de Santa Cruz do Deserto. As terras haviam sido recentemente doadas por outra figura emblemática da história nordestina: Padre Cicero. O religioso fora por todo o sempre influência para o beato.

Para o sítio passaram a confluir grupos de miseráveis, alguns fugindo da dura seca que assolava a região. A comunidade cresceu. Estabeleceu-se organizando-se num socialismo primitivo. A comunidade produzia lucros e os dividia irmanalmente. Todos eram iguais. Acima deles, zeloso, estava a figura do beato.

 

A igreja, atrelada aos interesses dos políticos e coronéis do sertão, tratou logo de desmerecer a figura do beato. Por estes tempos, Padre Cícero, outra figura emblemática, ofereceu a ele apoio espiritual.

Em plena ditadura de Getúlio Vargas, a existência de tal associação humana incomodava não só aos coronéis como também aos generais. Os fiéis deixavam a miséria e seguiam para a comunidade, fazendo escassear a mão de obra dos latifúndios.  Então, em setembro de 1936 a comunidade foi assaltada pela polícia militar cearense. O que se deu, pelo relato dos sobreviventes, foi uma barbárie. Morreram pelas balas mais de 700 pessoas. Os números, segundo os relatos da história, divergem entre setecentas e mil almas.

Acabava tristemente a experiência libertária do beato José Lourenço.

Sobre esse curioso relato fora feito um filme “ O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto”. A obra, posterior aos eventos, resgata a história. Alguns daqueles que por lá moraram visitam o sítio. Nada restara da antiga comunidade. Todas as casas e ruas vieram ao chão. Muitas e muitas décadas depois, apenas por intermédio da ONG cearense SOS Direitos Humanos, houve um movimento legal para identificar enterrar dignamente os mortos da chacina. O caso foi arquivado pela justiça.

 

Na imagem destacada, sobreviventes da comunidade em 1936 e o sítio e a igreja, ou tudo o que restou.

Sobre o Autor

Rodrigo de Novaes

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