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A Falência Moral das Instituições Públicas Brasileiras

justiçamento

 

 

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Que a corrupção sempre existiu no Brasil, todos sabemos agora, com o advento da popularização da internet e, de quebra, das redes sociais, o brasileiro passou a se interessas mais por política. Neste cenário, o contexto político passou a ser acompanhado por milhões de pessoas como se fosse o último capítulo de uma novela. Com o processo que culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff, o país foi dividido entre “Esquerda e Direita”, uma divisão que sempre existiu mas que ganhou muita força após os protestos de 2013 e posterior queda da ex presidente Dilma Rousseff.

 

Os protestos de 2013, inspirados pelos movimentos “emancipacionistas” da Primavera Árabe, trouxeram uma série de reivindicações com o povo exigindo saúde, educação, moradia, direitos essenciais para qualquer cidadão mas que no Brasil, ainda são privilégios de uma minoria. Através dos protestos a classe política ligou o sinal de alerta pois as manifestações demonstraram grande insatisfação popular nas Instituições brasileiras. Com a classe política atolada em denúncias de  corrupção, com a polícia em constante descrédito, matando primeiro e perguntando depois assim como o poder judiciário, extremamente moroso e em franco processo de politização, esse cenário caótico abriu caminho para um fenômeno visto recentemente, a onda de Justiçamentos Populares, fruto da ineficiência dos órgãos de justiça Estatais. Os processos de linchamentos, que lembram o contexto de Idade Média, já deixou muitas vítimas, como a moradora de Santos, acusada, injustamente, de ser sequestradora de crianças por um blog policial da baixada, passando pelo menino negro amarrado por populares no Rio. O caso mais recente de justiçamento deu-se na última semana quando um menor, usuário de drogas, acusado de furtar uma bicicleta foi mantido em cárcere privado por dois tatuadores que, em ato de vingança, tatuaram na testa do menino, “Sou Ladrão e Vacilão”. Estes atos de torturas ou de justiçamentos apenas demonstram como nossas instituições públicas perderam credibilidade perante à população. Ao invés de chamar a polícia, órgão estatal responsável por garantir a ordem e o direito à propriedade, os cidadãos, cansados da falta de assistência estatal, estão recorrendo aos linchamentos e demais atos justiceiros, inclusive tendo apoio de alguns expoentes da grande mídia, como a Jornalista de Direita Rachel Sheherazade, dona do célebre slogan “Ta com dó, adote um bandido”. Não se trata de adotar bandidos, trata-se de exigir que os órgãos competentes cumpram suas funções, que a polícia prenda e que o preso tenha um julgamento rápido e justo. Que a lei prevaleça para todos os brasileiros, como esta na Constituição Federal e não apenas para negros, como Rafael Braga, único preso das manifestações de 2013. Quando a justiça é seletiva, abre espaços para que a população se sinta no direito de ter poder de polícia, algo inaceitável para qualquer Estado pleno de Direito.

 

A crise ética e moral no Brasil é tão intensa que hoje, defender o óbvio, como ser contrário ao machismo, ao racismo e a homofobia é ser taxado de “politicamente correto”, algo surreal. Da mesma forma hoje, um preceito básico como a Honestidade, algo que deveria ser normal, atualmente é visto como bandeira política, uma aberração de uma sociedade doente.Ser honesto não é mérito, é obrigação de qualquer cidadão e quando colocamos candidatos no pedestal apenas pelo fato de serem honestos, então chega-se a conclusão que a nossa sociedade esta apodrecida, falhamos como nação. A operação Lava Jato, tem mostrado dia apos dia que no quesito corrupção, não existe ideologia, tão pouco separação partidária já que grande parcela da classe política esta envolvida em denúncias de corrupção ativa ou passiva. O político não é um “alienígena”, ele vem de dentro da sociedade brasileira, se temos uma classe política corrupta é porque o nosso é corrupto, infelizmente.

Um dos maiores pensadores de Brasil, o falecido mestre Sérgio Buarque de Holanda, em sua obra, dedicou-se a pesquisar a essência do pensamento brasileiro, de como o “Jeitinho Brasileiro”, a artimanha, a falta de planejamento à longo prazo, atrapalham o crescimento do Brasil como nação. O “Homem Cordial”, aquele que não consegue separar relações públicas das relações privadas, que a todo momento tenta levar informalidade para todos os locais possíveis, tem nos políticos brasileiros seus principais expoentes. Por aqui o nepotismo é uma prática comum, principalmente no cenário político onde filhos de parlamentares muitas vezes são assessores remunerados, jogando o discurso meritocrata para escanteio.

O choque entre o interesse público e o privado esta tão presente no Brasil de hoje que juízes, aqueles cuja função exige discrição,  a todo momento estão em capas de jornais e revistas, algo aceitável para um artista mas abominável para um agente do poder judiciário, justo o poder responsável pelo equilíbrio entre os três poderes. Tanto ministros do STF como juízes de primeira instância, tem se comportado como super Astros à revelia dos Conselhos de Ética,  cada vez mais contaminados. Na ânsia por gerar notícias, inflando o ego, alguns magistrados  tem atuado sem isenção, ora agindo para proteger os seus aliados e seus interesses privados, ora para condenar seus inimigos, em uma clara demonstração de parcialidade e de pouca compreensão do papel que deveriam desempenhar. Essa espetacularização  da Justiça, apoiada pela grande mídia, o quarto poder, tem contribuído para o descrédito popular frente as instituições e isso é extremamente perigoso pois ao longo da história, vimos como instituições fracas podem abrir caminho para regimes totalitários, como o Nazismo na Alemanha e o Fascismo na Itália. Compete lembrar que Hitler não deu um golpe de Estado para ascender na Alemanha, pelo contrário, chegou ao poder aproveitando-se do contexto econômico e das brechas existentes nas instituições  alemãs. Com o aumento no descrédito nas instituições brasileiras, abre-se caminho semelhante para que uma Terceira via assuma o protagonismo, baseada em discursos de ódio e em soluções simples para problemas complexos, basta notar como discursos “apolíticos” tem ganho força entre figuras de fora da Arena política, inclusive com nomes do ramo empresarial entrando na esfera pública, gerando o choque entre interesse público-privado descrito por Sérgio Buarque de Holanda.

A crise moral, mais do que a crise econômica é o principal entrave para que o Brasil não atinja todo potencial que pode e, por essa razão,  precisamos com urgência de uma reforma nas nossas instituições, fortalecendo-as para evitar a ascensão de “salvadores da pátria messiânicos” que em nada resolverão os nossos problemas com discursos populistas e extremamente imediatistas. O Brasil enfrenta muitos problemas graves, como o aumento do desemprego, a escalada da violência, principalmente nas periferias , o sucateamento dos serviços de saúde, educação e policialmente e não se resolve tais problemas da noite pro dia, é preciso ações efetivas, duradouras e que sejam inclusivas. A população deve participar da solução dos problemas, através do voto, de plebiscitos, do estímulo da participação popular através de conselhos regionais, fiscalizando os serviços públicos e cobrando por melhorias. Um Estado forte necessita de instituições fortes e isto esta em falta no Brasil.

 

 

Sobre o Autor

Prof Diogo Dionizio

Professor de História na rede Pública de São Paulo, membro da UNEGRO, Historiador e ativista político.

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