CARNAVAL SEM RACISMO

CARNAVAL SEM, mascaras,RACISTAS! Mais um episódio do Brasil cordialmente responsável, que acredita no mito da democracia racial.

Written by Anderson Moraes

 

 

O carnaval é a festa popular, tão tradicional no nosso país, onde se busca o lúdico, o prazer. A métrica é ousar e ser ousado, extrapolar os limites pré-estabelecidos pela sociedade. No picadeiro da folia tudo pode e tudo é permitido.

Assim pensam os milhões de foliões no Brasil e no Mundo. No gozo da festa se libertam das amarras sociais, transformando os quatro dias de folia em uma grande oportunidade para expor seus desejos e posicionamentos de mundo que durante meses ficaram guardados na caixinha do “agora não, espera o carnaval”. A festa pagã onde tudo é permitido.

As vestes coloridas, os pierrôs, arlequinais, se juntam a fantasias de presidiários, de super-heróis e de máscaras de figuras públicas acusadas ou apenas denunciadas, no país da judicialização da política.

Esta semana tivemos mais um episódio do Brasil cordialmente responsável, que acredita no mito da democracia racial: Capítulo de hoje:

A blogueira Tata Estaniecki mostrou sua verdadeira face ao postar uma foto em suas redes sociais com uma máscara em “homenagem aos escravos”, para ir ao baile de carnaval de uma marca de roupa. Máscara esta inspirada na Máscara de Flandres, que tinha como objetivo impedir a ingestão de alimentos ou bebidas por parte dos escravos. Ou seja, um instrumento de mutilação humana contra um povo que era açoitado pelo simples fato de existir. Negros e negras eram apenas uma coisa, uma propriedade. Não podiam ter religião de matriz africana ou cultivar suas raízes, vivendo sob o olhar severo da lei.

Antes de continuar ficam algumas perguntas: O objetivo do uso da máscara é puramente estético ou se trata de uma crítica? O carnaval é a festividade do deboche e do humor, mas é coerente que se faça piada contra as minorias e marginalizados ( exemplo, negros, homossexuais, populações empobrecidas)? Até que ponto estereótipos como o do  “Black Face” ou a “Nega Maluca” são engraçados e até que ponto ajudam a marginalizar populações? Quem define o que é piada para a outra etnia, credo, gênero e afins?

Nossa sociedade tem por característica o hábito de relativizar os direitos, considerar pequenas as grandes faltas.

No Carnaval tudo pode? Não. Leis devem ser cumpridas em meio à folia. O país, apesar de receber um golpe por dia e parecer uma zona, ainda tem leis e regulamentos que garantem a preservação da cultura e tradição de povos, comunidades e grupos específicos.

Lembrando que políticas públicas de ações afirmativas para povos negros (como a reserva de cotas e análogos), quilombolas, ciganos, comunidades tradicionais de matrizes africanas  bem como as lutas diárias da militância negra( em projetos como a Aparelha Luzia, Geledés, Alma Negra, Jornal Empoderado e outras mídias negras), de grupos como a Seppir e Quilombação e do recém criado partido Frente Favela Brasil, somados a coletivos,  são todos esforços que visam diminuir as injustiças contra a raça negra em todos os âmbitos. São reparos históricos às injustiças causadas pelos mesmos que criaram as Máscaras de Flandres e hoje fazem disso uma piada racista.

O que fica do episódio, mais um, é que é concebido por essa “gente de bem” que foi “educada”, a concepção da idéia de que com os negros ” pode a piada” , que a reclamação é “vitimismo” ou pior: “é coisa de preto”.

*Eles e elas aqui seriam as pessoas negras.

A blogueira precisa estudar mais sobre tolerância, sobre a cultura negra e sua luta. Pois se ela faz deliberadamente a “fantasia”, sabendo da historia da população negra, necessita urgentemente ser chamada a responder judicialmente pelo crime. E sobretudo porque, se a fantasia não foi usada como crítica, foi opostamente como escárnio. Caso seja apenas ignorância e herança deste Brasil escravocrata, é aconselhado que a blogueira passe rapidamente por uma introdução da história deste povo que existe antes de a família dela existir.

Sobre aprender, compreender e respeitar a história, sugerimos a blogueira ler o livro O que você sabe sobre a África?“. Um livro que nasceu da parceria da antiga administração do prefeito Fernando Haddad com a Secretaria Municipal de Educação (SME) e a extinta, pela atual gestão, Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial (SMPIR).

Neste livro a Tata Estaniecki irá fazer uma viagem pela história do continente e dos afro-brasileiros e saberá que “existe uma história dos negros e da África sem o Brasil, mas não existe uma história do Brasil sem os negros e sem a África”.

Vale lembrar para a blogueira e tantos outros que ainda acham que a “Nega maluca” ou o “blackface” é apenas uma “piada”, “adereço” ou “acessório” que isto tem nome. É racismo. E como tal toda prática racista se constitue em crime previsto na Lei 7.716.

Ainda finalizo lembrando a letra do samba “O Dia Em Que o Morro Descer e Não For Carnaval” (de Wilson das Neves e Paulo Cesar Pinheiro), que entre outras coisas pede que o povo acorde e lute pelo que acredita, contra aqueles que o humilha e tortura. E quando o morro, favela e a periferia “descerem”, as máscaras irão cair.

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Anderson Moraes

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